Rotatórias de Saigon


Cheirava a óleo queimado, fritura antiga e alguma flor invisível vendida duas ruas atrás. O capacete derretia os miolos. O suor não corria: estacionava. Poeira das obras em volta grudava na língua. Diesel nos pulmões. E, apesar disso, havia um perfume doce atravessando tudo — como se a cidade lembrasse, a cada esquina, que não era só coisa.

Nada de perfeição, irmã de Bangkok e São Paulo, mais arborizada e com um charme sem necessidades de perfeitas traduções, mas recheada de elegâncias discretas.


Não sei bem o dia em que me diverti mais aqui, ou se ainda está por vir.  Mas, se foi, pode ter sido logo na chegada, quando, apressado para sair do hotel, fui convidado pelos vizinhos a sentar um pouco na roda deles. Aceitei, mais para não fazer desfeita, ainda mais que era logo no apito inicial. Estava inquieto para andar, conhecer. Eles, mais curiosos ainda, perguntavam tudo. Quando disse ser brasileiro, enumeraram nomes de jogadores de futebol. Zombaram o Neymar, mas elogiaram os Ronaldinhos e o Rivaldo. Ofereceram um tipo de pastelzinho agridoce e uma cerveja que mataram a fome do viajante. Peguei algumas no bar ao lado para retribuir. Fiquei duas, três horas ali: brinquei, sorri, quase me arranjaram um casamento.

Foi aí que resolvi andar mais.☺

A primeira paquera aguçando meu interesse surgiu apenas enquanto a moto do meu Grab subia pelo passeio. Coisa de relance. 😉

No dia seguinte, ainda ruminando os comentários sobre futebol, pensei de novo no interesse deles pelo jogo ao ver um burburinho diante de uma TV pequena. Dei uma espiada: parecia jogo da seleção. Continuei andando.


Um pouco mais à frente, encontrei algo que jamais tinha visto — nem na terra do samba e do futebol. Um bar lotado, vuvuzelas estridentes, mesas com cadeirinhas baixas tomadas por jovens alegres e, na lateral, ao meio-fio, dezenas de motos, paradas no meio da rua, montadas pilotos e garupas, assistindo à partida.

Parei.

Acompanhei com eles o final. O jogo estava dois a dois. A Coreia atacava sem parar, e os vietnamitas exibiam o que têm de melhor: raça dentro de campo, alegria fora. Cada chutão virava comemoração. Fui engolido pela torcida e, quando percebi, já era Vietnã desde sempre.

Veio a prorrogação. Depois, os pênaltis. Sofrimento absoluto, catarse à altura.

Quando acabou, a cidade explodiu. Gente gritando, motos buzinando, bandeiras improvisadas, risadas espalhadas pelas esquinas. Uma festa sem medida.




Uma delícia ter participado com eles!!

Gosto de viajar de um jeito peculiar. Talvez por ser distraído, prefiro permanecer. Ficar mais tempo. Voltar aos mesmos lugares. Reencontrar pessoas. Ter algo a mastigar devagar.

Em vez do pica-aqui-acolá — três dias em cada canto, fotos rápidas, checklists invisíveis — escolho reduzir o estresse e estender a experiência. Repetir ruas. Reconhecer fachadas. Ser lembrado no balcão. Deixar que a cidade pare de ser casca e revele seu ritmo.

Assim descubro menos fora e mais dentro.

Idiossincrasia foi uma palavra que demorei a aprender. Custei a memorizar e ainda guardo certa estranheza. Mas, tal qual aquele amigo que não apreciamos no primeiro encontro, ou a paquera que desdenhamos e depois começamos a valorizar mais, ela hoje está bem integrada ao meu vocabulário. Seu significado fez a mágica.

Quando viajamos sozinhos, algo acontece. O mochileiro é para os outros um forasteiro. Precisa dobrar a atenção e os cuidados — abrindo o coração para o novo. Distantes de tudo que nos é familiar, imersos em novidades, nossa energia, nossa essência entram em contato direto com forças desconhecidas. Somos nós e o mundo. Nesse entrelace, oportunidades de autoconhecimento surgem em meio ao clima de aventura.

O Vietnã tem sido uma surpresa grata para mim. Nas rotatórias de Saigon, brinquei, me perdi, adoeci, dancei, sarei, me achei, sorri e cantei. A história já me falava da coragem e da determinação do povo; aqui, porém, experimentei. Junto com a pressa sem raiva, o arrojo sem agressão, a alegria que brota sem alarde. Nada aqui é perfeitinho, mas operante, dinâmico, receptivo.

Nós, ocidentais, prezamos a democracia com razão: parece o pior dos melhores sistemas, pois permite autocorreções. Isso, no entanto, não deveria nos impedir de compreender formas diferentes de organização — sobretudo quando não apelam à adoração de figuras dominadoras pelo puro exercício do poder. 


A burocracia derivada do controle ainda é problema, sem mencionar os riscos à liberdade individual conforme alterações de quem ocupa o poder. Ainda assim, é interessante observar o socialismo funcionando sem fechamento e abrindo-se para negócios com todos, ao passo que desigualdades são contidas. Educação, saúde e esperança de futuro formam o clima por aqui. apesar da pobreza, não há mendigos ou moradores de rua, todo mundo se movimenta. Praças com música de qualidade, simplicidade e erudição se olhando cara a cara. Artista e povo se abraçando nas ruas. 




A simpatia com que os vietnamitas recebem estrangeiros — mesmo após um século de dominação francesa, que se deixaram charme e arquitetura com certeza foi a preço alto e a guerra envolvendo os Estados Unidos — é bonita de ver e ajuda a explicar o crescimento do turismo: seguro, barato, diferente, bonito e divertido.



Além das belezas naturais que tantos países desta região oferecem, os povos do Sudeste Asiático entregam ao visitante uma inocência sem ingenuidade, se é que isso faz sentido. Algo contagiante, agradável de partilhar. Na Tailândia, a ênfase repousa na calma, na contemplação, no deleite, numa passividade estratégica que convive com a alegria. No Vietnã, o equilíbrio brota da ação: cada fresta disponível é ocupada, sem tensão — ou com um leve ardor, se quisermos ser mais precisos — esticando as possibilidades até o limite. Como admirador do I Ching, enxergo com clareza traços confucionistas aqui e algo de taoísta na Tailândia; embora não sejam religiões centrais em nenhum dos dois países, parecem em sintonia com o espírito de seus povos.

O trânsito também é um espetáculo à parte. Sempre que assisto a vídeos de cosmologia falando de distâncias colossais ou de galáxias que se atravessam sem se tocar, fico intrigado com a ausência de choques. Dizem que os espaços são tão vastos que a colisão é improvável. Aceito com alegria — sobretudo por não estar por aqui quando Andrômeda chegar. Ainda assim, alguma influência deve ocorrer. Já certos pássaros conseguem, em voo, localizar seis vizinhos imediatos e, ao menor desvio, reorganizar toda a formação.

O motorista vietnamita mereceria um tratado próprio. No início, me assustei. A primeira rotatória que atravessei a pé foi, para mim, aventura maior do que qualquer carrinho de tromba-tromba para um menino de cinco anos. Motos na contramão pelas beiradas, ou sobre os passeios; disputas milimétricas com pedestres que também se lançam ao asfalto; carros avançando centímetro a centímetro; buzinas incessantes. Uma pressa pela ocupação do espaço que eu julgava destinada a terminar em acidentes ou brigas — mas não vi nenhum dos dois. Tudo operando no limite.

Talvez, por incrível que pareça, estejamos mais seguros no olho do furacão do que na periferia, em lugares assim. Isso não é elogio. Ainda penso que a organização deveria ser maior: idosos ou pessoas com deficiência e os turistas em geral enfrentam dificuldades num ambiente tão bagunçado. Há também o risco inerente de todos testarem limites ao mesmo tempo. Ainda assim, a imagem inicial do perigo foi se dissipando à medida que passei a entender melhor o povo.



Na Tailândia quase não se ouve buzina; até em Bangkok elas são raras. Mas, num papo com um finlandês que fez o trajeto Hanói–Saigon de moto — e que também vinha da Tailândia —, ouvi algo curioso: é mais fácil dar problema lá do que aqui, porque o vietnamita anda com pressa, mas não corre. Já o tailandês,  — e seus visitantes — parecem gostar do sabor do vento.

Vou sentir falta.
Das famílias reunidas cantando karaokê aos domingos.
Da atenção constante ao caminhar pelas ruas.
Dos bares cheios de jovens em cadeirinhas baixas e gargalhadas altas.
Do poker jogado com alegria técnica e agressividade restrita à montanha-russa do jogo.
Das baladas leves, da beleza das asiáticas, do carnaval improvisado quando a seleção de futebol vence.



Além das fotos, lembranças e ruas atravessadas em alerta, levarei algo maior do que cabe na escrita — um pouco de Ho Chi em mim.


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