Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2026

A linha

Imagem
No ônibus noturno que saía cheio da cidade grande com pressa de chegar a lugar nenhum, havia uma linha invisível. Todos sabiam da existência do meio, mesmo sem linhas pontilhadas.  Artur entrou carregando duas mochilas e uma teoria social. A maior pousou no colo como um pacto provisório. Ele calculou centímetros com a precisão de quem já organizara muito mais do que bagagens na vida. Avançou ligeiramente além da linha imaginária. Nada escandaloso.  Um sutil desincentivo a pessoas grandes e com mais bagagens.  Era uma política preventiva. Evitava o espelho de sua condição. Se viesse alguém pequeno, leve, desarmado de malas, ele ajustaria. Mas caso viesse alguém proporcional. Veio. Um homem largo, malas abundantes, expressão de quem já escolhera antes de escolher. Sentou-se ao lado com a naturalidade de quem paga e não pede explicações. Na irritação de momento Artur olhou pra janela e deixou tudo como estava. Passou um minuto. — Temos um problema — disse o homem, edu...

Rotatórias de Saigon

Imagem
                                      Cheirava a óleo queimado, fritura antiga e alguma flor invisível vendida duas ruas atrás. O capacete fervia os miolos. O suor não corria: estacionava. Poeira das obras grudava na língua. Diesel nos pulmões. E, apesar disso, havia um perfume doce atravessando tudo — como se a cidade lembrasse, a cada esquina, que não era só coisa. Nada de perfeição: irmã de Bangkok e São Paulo, mais arborizada, com um charme que dispensa completas traduções, mas recheada de elegâncias discretas. Não sei bem o dia em que me diverti mais aqui, mas pode ter sido logo na chegada, quando, apressado para sair do hotel, fui convidado pelos vizinhos a sentar na roda deles. Aceitei mais para não fazer desfeita, ainda por cima no apito inicial. Estava inquieto para andar, conhecer. Eles, mais curiosos ainda, perguntavam tudo. Quando disse ser brasileiro, disp...