Jô Soares criou certa vez um personagem que padecia de um mal curioso:
só conseguia dar a resposta certa horas depois.
A cena seguia um ritual simples e infalível. Diante de uma bronca, um desaforo, uma injustiça cotidiana, engolia seco, baixava a cabeça e seguia seu caminho. No dia seguinte, já de posse da réplica perfeita, saía à rua para ajustar as contas com o mundo: discutia com estranhos, xingava pessoas aleatórias, despejava sua lucidez tardia sobre quem nada tinha a ver com a história original.
Havia ali um erro duplo.
Errava o tempo — e, ao errar o tempo, errava também o alvo.
A resposta, correta em essência, tornava-se injusta na aplicação. Ao acertar fora de hora, o personagem não apenas falhava: criava conflitos que jamais teriam existido. A genialidade deslocada contaminava o ambiente.
Na televisão, virava gargalhada.
Na vida real, trapalhada.
Porque o erro humano raramente é solitário. Uma reação que não nasce no instante certo costuma reaparecer no instante errado — e, quando reaparece, atinge quem nada tem a ver com a origem do conflito. O atraso fabrica injustiça e pode transformar lucidez fora de hora em violência sutil.
Talvez por isso o mundo não falhe apenas por choque de valores,
mas por descompasso de tempos.
Um entende antes. Outro depois.
Um age quando o sentido ainda está cru;
outro responde quando já passou do ponto.
A palavra justa, fora de hora, soa injusta.
O gesto correto, deslocado, amplia o caos.
Boa parte dos mal-entendidos não nasce da divergência,
mas do desencontro entre relógios internos.
(Einstein não se espantaria.)
Cada um carrega seu próprio fuso emocional,
seu ritmo de digestão da realidade.
Exigir sincronia perfeita é pedir demais,
ainda mais num universo em constante mutação.
Muito do descompasso que nos atravessa nasce do medo. Não do perigo imediato — que, quando é real, mobiliza —, mas do medo projetado: esse deslocamento sutil que retira o corpo do presente e lança a mente num futuro possível. O coração ainda bate, o chão ainda sustenta, mas o pensamento já ensaia a queda. A imaginação, feita para antecipar e proteger, passa a trabalhar contra nós: fabrica cenários, amplia ameaças, sabota o agora. A hesitação, quando acontece, é porque a presença se rompe. O ser se divide no tempo — corpo aqui, mente adiante. Essa é a maneira clássica do nascimento de atrasos e erros.
Krishnamurti observou que o medo não está ligado a observação dos fatos, mas no movimento em direção ao que ainda não existe. Quando a verdade é vista como fato — não como conclusão —, o pensamento perde o que fazer. E muito do que chamamos sombra, no sentido junguiano, não passa dessa imaginação sem ancoragem, governando ações fora de hora.
Talvez por isso o mundo contemporâneo pareça povoado de versões involuntárias do personagem do Jô, entre outros ainda mais sombrios. Gente que parece inteligente, cheia de argumentos, mas vivendo no tempo errado, num mundo de possibilidades. Clareza em excesso, presença em falta. Confusão.
A presença de espírito tornou-se rara.
Cada qual disperso em seu próprio devaneio, enquanto o que poderia sincronizar os relógios era sonhar juntos diante dos acontecimentos.
Quando a vida requisita participação, a maioria reage no automático — ou congela.
O insight vem depois. Sempre depois.
Viver em plenitude exige estar inteiro no instante. O universo se atualiza evento a evento e requer atenção às mudanças. É evidente que projetar cenários e planejar faz parte de nossa natureza. O perigo é ir tão frequentemente além do que está acontecendo na realidade que esquecemos de estar. A atenção não serve apenas para responder melhor, mas para não ferir à toa. A presença reduz danos colaterais e impede que a lucidez vire arma fora de hora.
Pessoas espirituosas não parecem “pensar no que dizer”. Elas não corrigem o passado com palavras tardias. Estão ali. Prontas. Vivendo no único lugar onde algo realmente acontece: o presente.
Automatismo tentando acertar ontem com a pressa de hoje deixa pelo caminho conflitos que jamais precisariam existir.
O atraso força atalhos. Quem chega depois tenta recuperar no cálculo o que perdeu no instante.
Num mundo que acelera e amplia riscos, a presença vira condição de sobrevivência social e moral. Sem ela, até o afeto perde temperatura. Com ela, ainda é possível trocar calor humano — solução infalível para sentidos fora de compasso.
Adendo — ecos sobre tempo e presença
“Quem sabe faz a hora, não espera
acontecer.” Geraldo Vandré
“And then one day
you find ten years have got behind you.” Pink Floyd
“Não se entra duas vezes no mesmo rio.” Heráclito
“Only through time
time is conquered.” T. S. Eliot
“Pensar é estar doente dos olhos.” Pessoa (Caeiro, em espírito)
Comentários
Postar um comentário