Falsa força


Na escola, aprendi que o mundo se dividia em três tipos de países: os de primeiro, os de segundo e os de terceiro mundo.
O primeiro permaneceu.
O segundo se dissolveu.
O terceiro virou outra coisa — insumo, reserva, combustível.

Nós, humanos, temos uma relação curiosa com o perigo.
Quando ele surge, o medo organiza. A atenção se aguça, os cuidados se multiplicam e a sobrevivência assume o comando. Mas o tempo é um anestésico eficiente: a ameaça se distancia, o medo se dilui, e voltamos a testar os limites como se o risco tivesse sido uma invenção passageira.

Isso não acontece apenas com indivíduos.
Acontece com sociedades inteiras.

Após a Segunda Guerra, o pavor da aniquilação produziu algo raro: coordenação. Instituições surgiram para conter impulsos, organizar conflitos e impedir que a força voltasse a falar sozinha. Havia ali uma esperança de articulação entre as nações — um freio ao absurdo. Uma possibilidade real de inflexão histórica: tecnologia aliada ao bem-estar, poder submetido a regras, progresso sem colapso. John Lennon resumiria esse horizonte em uma palavra: imagine.

Mas o medo passou.

No lugar dele, instalou-se uma confiança perigosa: a ideia de que o pior não aconteceria, porque ninguém seria louco o suficiente para explodir a própria nave. A ameaça virou blefe. O limite, encenação. O destino coletivo passou a ser tratado como ficha de negociação.

Einstein percebeu isso cedo. No pós-guerra, chegou a sustentar que apenas uma coordenação radical entre as grandes potências — justamente aquelas que detinham o poder destrutivo — poderia impedir o desastre. Não por gosto, mas por cálculo: sem limites compartilhados, a lógica da força acabaria se impondo outra vez.

    
“Sem coordenação, a humanidade não sobreviverá ao próprio poder.”

A crença de que apenas a força resolve não é neutra. Ela contamina decisões, desloca prioridades e corrói o espírito coletivo. Quando o mundo passa a operar sob essa lógica, o medo deixa de ser exceção e vira método: países aceleram programas militares, investem em armamentos cada vez mais destrutivos, reativam projetos nucleares não por agressão imediata, mas por antecipação paranoica. Recursos capazes de transformar sociedades — educação, ciência, saúde, infraestrutura — são desviados para a administração do pavor. No plano mais profundo, instala-se uma falsificação moral: a força passa a parecer solução quando, na verdade, produz apenas medo, revanche e instabilidade. Não é realismo duro; é ilusão empobrecida. Nada consegue ser eternamente perfeito, mas quando negligência e imprudência assumem o comando, não evitam o caos — preparam o terreno para que ele se multiplique.

Quando a memória do risco se apaga, o mundo retorna à contabilidade antiga. Alguns concentram decisão; outros fornecem energia. Uns planejam; outros sustentam. Países inteiros passam a ser tratados não como parceiros, mas como bateria — drenada até o limite, com danos de toda ordem, inclusive ambientais, que não respeitam fronteiras nem admitem culpados exclusivos.

A história mostra que colapsos raramente chegam como surpresa. Eles são anunciados pelo relaxamento dos freios, pelo desprezo às assimetrias e pela crença persistente de que o sistema aguenta mais um pouco. Um lado passa a temer paranoicamente o outro, superestimando a hostilidade alheia e subestimando o impacto das próprias ações na construção de ameaças. Líderes acreditam que podem domar forças cada vez mais instáveis, sem perceber que, à medida que os eventos se acumulam, basta um evento pontual — mal interpretado no calor da tensão — para que o barril de pólvora estoure.

Não é a ignorância que nos ameaça.
É a acomodação após o perigo.

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