A linha
No ônibus noturno que saía da cidade grande com pressa de chegar a lugar nenhum, havia uma linha invisível. Todos sabiam da existência do meio, mesmo sem linha pontilhada. Artur entrou carregando duas mochilas e uma teoria social. A maior pousou no colo como um pacto provisório. Ele calculou centímetros com a precisão de quem já organizara muito mais do que bagagens na vida. Avançou ligeiramente além da linha imaginária. Nada escandaloso. Um sutil desincentivo a pessoas grandes e com mais bagagens. Era uma política preventiva. Evitava o espelho de sua condição. Se viesse alguém pequeno, leve, desarmado de malas, ele ajustaria. Mas caso viesse alguém proporcional. Veio. Um homem largo, malas abundantes, expressão de quem já escolhera antes de escolher. Sentou-se ao lado com a naturalidade de quem paga e não pede explicações. Na irritação de momento Artur olhou pra janela e deixou tudo como estava. Passou um minuto. — Temos um problema — disse o homem, educado como um r...