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Sonrisal Cósmico

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Duas pastilhas efervescentes, quando colocadas juntas no centro de um copo d’água, começam a se dissolver quase ao mesmo tempo. À medida que borbulham, afastam-se lentamente uma da outra, empurradas pelas próprias reações químicas, até parar em lados opostos do copo, separadas pela água que aos poucos ganha cor. Cada uma passa a desenhar sua constelação de bolhas, seu domínio transitório. As frentes se expandem, encontram-se, interferem, até que o líquido inteiro se torne turvo e ativo — mas não instantaneamente. Cada ponto do copo recebe primeiro uma notícia, depois outra. Essa demora é tudo. O universo parece operar como uma sucessão de chegadas, encontros e desencontros. Cada coisa só passa a existir para as demais depois das interações que a fazem alcançar outros lugares. A realidade se escreve em ondas de atualização, avançando até o limite onde a informação ainda pode se propagar. A luz marca esse ritmo. Para qualquer corpo com massa, ela percorre a distância no menor intervalo c...

Sentidos Sarados

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Jô Soares criou certa vez um personagem que padecia de um mal curioso: só conseguia dar a resposta certa horas depois. A cena seguia um ritual simples e infalível. Diante de uma bronca, um desaforo, uma injustiça cotidiana, engolia seco, baixava a cabeça e seguia seu caminho. No dia seguinte, já de posse da réplica perfeita, saía à rua para ajustar as contas com o mundo: discutia com estranhos, xingava pessoas aleatórias, despejava sua lucidez tardia sobre quem nada tinha a ver com a história original. Havia ali um erro duplo. Errava o tempo — e, ao errar o tempo, errava também o alvo. A resposta, correta em essência, tornava-se injusta na aplicação. Ao acertar fora de hora, o personagem não apenas falhava: criava conflitos que jamais teriam existido. A genialidade deslocada contaminava o ambiente. Na televisão, virava gargalhada. Na vida real, trapalhada. Porque o erro humano raramente é solitário. Uma reação que não nasce no instante certo costuma reaparecer no instante errado — e, q...

Falsa força

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Na escola, aprendi que o mundo se dividia em três tipos de países: os de primeiro, os de segundo e os de terceiro mundo. O primeiro permaneceu. O segundo se dissolveu. O terceiro virou outra coisa — insumo, reserva, combustível. Nós, humanos, temos uma relação curiosa com o perigo. Quando ele surge, o medo organiza. A atenção se aguça, os cuidados se multiplicam e a sobrevivência assume o comando. Mas o tempo é um anestésico eficiente: a ameaça se distancia, o medo se dilui, e voltamos a testar os limites como se o risco tivesse sido uma invenção passageira. Isso não acontece apenas com indivíduos. Acontece com sociedades inteiras. Após a Segunda Guerra, o pavor da aniquilação produziu algo raro: coordenação. Instituições surgiram para conter impulsos, organizar conflitos e impedir que a força voltasse a falar sozinha. Havia ali uma esperança de articulação entre as nações — um freio ao absurdo. Uma possibilidade real de inflexão histórica: tecnologia aliada ao bem-estar, poder su...

O Erro de Querer Ser Grande Sozinho

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  Certa vez, disse a um amigo que a humildade atravessa todos os níveis hierárquicos e, por isso, talvez não seja um traço local da história humana, mas algo mais amplo — possivelmente estrutural à própria organização da vida inteligente. Ele reagiu com surpresa e discordou prontamente, afirmando que tal virtude pertenceria apenas às circunstâncias específicas da Terra e dos homens. A objeção me acompanhou. A vida é emergente. Onde quer que surja, parte de ingredientes semelhantes, que se combinam de modos distintos conforme o contexto. A evolução fornece a chave. Quando a vida alcança a inteligência, a disputa por energia, as estratégias de sobrevivência e a necessidade de coordenação entre indivíduos conduzem, quase inevitavelmente, à estratificação social. Onde há hierarquia, há comando e submissão. Onde há competição, surgem vencedores e vencidos — e, com eles, atitudes correspondentes. Desses polos emergem a modéstia e a arrogância, em escalas ajustadas à posição que cada ser ...

Oceano de som!!

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  Na natureza, a audição é questão de sobrevivência. Elefantes captam sons graves que percorrem o solo por quilômetros; morcegos se guiam na escuridão pela ecolocalização; corujas percebem os mínimos ruídos da presa na relva; golfinhos trocam informações por ondas sonoras que atravessam o oceano. Cada espécie evoluiu para escutar conforme suas necessidades: cooperar, caçar, fugir, anunciar perigo. Há uma lógica de economia: todo som revela posição, e excesso sonoro denuncia fragilidade. E, no entanto, os bem-te-vis seguem firmes — espalhafatosos, estridentes, anunciando sua presença sem pudor. Talvez seja justamente essa ousadia sonora o presente que nos oferecem como exceção à regra: um alarme alegre contra o cinza do mundo. Para o ser humano, ouvir é tão vital quanto para os demais, mas a escuta não se limita à sobrevivência. Ela aparece também nos gestos cotidianos: na polidez, na empatia, no afeto. Ouvir com atenção quase sempre traz informação nova — às vezes sobre o outro, às...

Canto para a nossa morte!

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                                                        Em Canto para minha morte , Raul Seixas enumera possíveis encontros com o fim, mas expressa o desejo de recebê-lo em sua melhor versão. Cada um idealiza a sua, mas creio que todos, no fundo, querem encontrar sentido, ou uma centelha de paz, antes desse momento derradeiro. “Um acidente de carro O coração que se recusa a bater no próximo minuto A anestesia mal aplicada A vida mal vivida A ferida mal curada A dor já envelhecida O câncer já espalhado e ainda escondido Ou até, quem sabe, um escorregão idiota Num dia de sol, a cabeça no meio-fio Oh morte, tu que és tão forte Que matas o gato, o rato e o homem Vista-te com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar”                Alguns vivem plenamente, constroem família,...

Sessão Pipoca (parte2)

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  O futuro já aterrissou: está apenas na sala de embarque, realizando o check-out, e temos pouquíssimo tempo para encontrá-lo em nossa melhor forma. O gráfico que ilustra o texto é um guia de como, a cada tempo, as ideias centrais de famosas histórias ficcionais, considerando os aspecto de avanços tecnológicos previsto foi, um dia, um sonho distante — em algum momento consideradas inclusive inviáveis — mas hoje estão prestes a acontecer. Não uma, mas todas concorrendo para um futuro que, ainda, cabe a nós, humanos, direcionar. (as porcentagens foram “calculadas - inventadas” por AI, considerando os eventos  que incidiram ao longo do tempo. Muitas dessas possibilidades tendem,  devido ao avanço tecnológico, otimizado por AI desde a estrutura do chips até os grandes modelos de linguagem, a  terem cada vez mais chances de acontecer.   Torna-se interessante, portanto, realizarmos uma viagem por filmes e livros que projetaram nosso presente como futuro. ...

Sessão pipoca (parte 1)

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Na década de noventa debatíamos cenários cinematográficos que pareciam vir de universos distantes. Algumas previsões soavam absurdas; outras rondavam nosso horizonte sem deixar pistas de quando, afinal, se tornariam realidade. Na virada para 2000, o susto não veio de alienígenas, mas de linhas de código: o bug do milênio prometia derrubar sistemas inteiros. A prudência dos programadores se transformou em paranoia global ― até que as precauções valeram e tudo seguiu como antes. Esse episódio pode ser pensado como o embrião do medo tecnológico que eclodiria décadas mais tarde. Kubrick idealizou uma missão tripulada a Júpiter em 2001 ; em 2025, ainda não voltamos à Lua, nem pisamos em Marte. Carros voadores? Naquele instante, eram pura ficção; hoje, protótipos cruzam nossos céus. Antes de 2010, a Inteligência Artificial parecia distante; mas, nas últimas décadas, ela se revelou surpreendente, instigando um debate urgente sobre como vamos gerenciar ferramentas tão poderosas. Computad...

Mask!

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                                                                                                     Espelho, espelho meu...  No conto, a pergunta era repetida com obsessão: existe alguém mais bela do que eu? A madrasta forçava a barra, mas no fundo sabia a resposta — e se irritava com a verdade.  A comparação a feria, a ambição a cegava, e a inveja transformava qualquer possível beleza em seu oposto. Hoje, desenhamos cuidadosamente o que o espelho deve refletir. Mas será que não estamos nos tornando bons demais em parecer bons? Não que seja condenável apresentar-se com alguma pompa e circunstância ou sinalização de força, dependendo da situação. Na natureza observamos exemplos de animais q...