Muitos versos
Há vidas que não sabemos que perdemos. Não as que terminam com funerais, mas as que evaporam nos “quases”. O carro que freou um metro antes. O exame que voltou normal. O voo que atrasou e, por isso, não foi o mesmo. A curva feita devagar. A mensagem respondida a tempo. Cada um desses instantes poderia ter sido o último — e não foi. Seguimos. Como se fosse natural. Como se fosse garantido. Na metade do século XX, um jovem físico chamado Hugh Everett III propôs algo que soava ficção: talvez o universo não escolha um resultado quando algo é medido. Talvez todos aconteçam. O mundo não colapsaria para uma única história; ele se ramificaria em muitas. Cada possibilidade compatível com as leis físicas continuaria existindo, apenas em ramos diferentes. A ideia foi recebida com frieza. Décadas depois, ganharia respeito e passaria a integrar seriamente o debate sobre os fundamentos da mecânica quântica. Everett não viveu para assistir à consagração de sua proposta. Morreu aos cinquenta e um anos...