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Rotatórias de Saigon

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                                      Cheirava a óleo queimado, fritura antiga e alguma flor invisível vendida duas ruas atrás. O capacete fervia os miolos. O suor não corria: estacionava. Poeira das obras grudava na língua. Diesel nos pulmões. E, apesar disso, havia um perfume doce atravessando tudo — como se a cidade lembrasse, a cada esquina, que não era só coisa. Nada de perfeição: irmã de Bangkok e São Paulo, mais arborizada, com um charme que dispensa completas traduções, mas recheada de elegâncias discretas. Não sei bem o dia em que me diverti mais aqui, mas pode ter sido logo na chegada, quando, apressado para sair do hotel, fui convidado pelos vizinhos a sentar na roda deles. Aceitei mais para não fazer desfeita, ainda por cima no apito inicial. Estava inquieto para andar, conhecer. Eles, mais curiosos ainda, perguntavam tudo. Quando disse ser brasileiro, disp...

Everything Is Looking for Someone

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A receita de sonhos doces esconde um ingrediente quase sempre esquecido. Costumamos apostar tudo nos próprios planos, como se a satisfação brotasse sozinha do esforço e da vontade de determinar o futuro. Duas forças opostas não se anulam: produzem. Avanço e retração. Abundância e falta. Aproximação e recuo. Na receita não há harmonia pronta — há procura. O movimento nasce da necessidade. Dela brotam alianças improváveis, escândalos morais, pares que incomodam porque expõem aquilo que preferimos não ver: o velho e a jovem, a rica e o pobre, o dominador e o entregue, o que busca abrigo e o que quer ser casa. Mesmo na aparente perfeição, o deslocamento para a união só se dá visando a complementariedade.  O telefone fica sobre a mesa, virado para cima. Não há urgência declarada. Mas, em algum momento ele é olhado de novo, depois recolocado no mesmo lugar. Nada aparece na tela. O gesto se repete sem decisão consciente. Não muda o objeto, mas muda quem espera. Há décadas, uma canção po...

Sonrisal Cósmico

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Duas pastilhas efervescentes, quando colocadas juntas no centro de um copo d’água, começam a se dissolver quase ao mesmo tempo. À medida que borbulham, afastam-se lentamente uma da outra, empurradas pelas próprias reações químicas, até parar em lados opostos do copo, separadas pela água que aos poucos ganha cor. Cada uma passa a desenhar sua constelação de bolhas, seu domínio transitório. As frentes se expandem, encontram-se, interferem, até que o líquido inteiro se torne turvo e ativo — mas não instantaneamente. Cada ponto do copo recebe primeiro uma notícia, depois outra. Essa demora é tudo. O universo parece operar como uma sucessão de chegadas, encontros e desencontros. Cada coisa só passa a existir para as demais depois das interações que a fazem alcançar outros lugares. A realidade se escreve em ondas de atualização, avançando até o limite onde a informação ainda pode se propagar. A luz marca esse ritmo. Para qualquer corpo com massa, ela percorre a distância no menor intervalo c...

Sentidos Sarados

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Jô Soares criou certa vez um personagem que padecia de um mal curioso: só conseguia dar a resposta certa horas depois. A cena seguia um ritual simples e infalível. Diante de uma bronca, um desaforo, uma injustiça cotidiana, engolia seco, baixava a cabeça e seguia seu caminho. No dia seguinte, já de posse da réplica perfeita, saía à rua para ajustar as contas com o mundo: discutia com estranhos, xingava pessoas aleatórias, despejava sua lucidez tardia sobre quem nada tinha a ver com a história original. Havia ali um erro duplo. Errava o tempo — e, ao errar o tempo, errava também o alvo. A resposta, correta em essência, tornava-se injusta na aplicação. Ao acertar fora de hora, o personagem não apenas falhava: criava conflitos que jamais teriam existido. A genialidade deslocada contaminava o ambiente. Na televisão, virava gargalhada. Na vida real, trapalhada. Porque o erro humano raramente é solitário. Uma reação que não nasce no instante certo costuma reaparecer no instante errado — e, q...

Falsa força

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Na escola, aprendi que o mundo se dividia em três tipos de países: os de primeiro, os de segundo e os de terceiro mundo. O primeiro permaneceu. O segundo se dissolveu. O terceiro virou outra coisa — insumo, reserva, combustível. Nós, humanos, temos uma relação curiosa com o perigo. Quando ele surge, o medo organiza. A atenção se aguça, os cuidados se multiplicam e a sobrevivência assume o comando. Mas o tempo é um anestésico eficiente: a ameaça se distancia, o medo se dilui, e voltamos a testar os limites como se o risco tivesse sido uma invenção passageira. Isso não acontece apenas com indivíduos. Acontece com sociedades inteiras. Após a Segunda Guerra, o pavor da aniquilação produziu algo raro: coordenação. Instituições surgiram para conter impulsos, organizar conflitos e impedir que a força voltasse a falar sozinha. Havia ali uma esperança de articulação entre as nações — um freio ao absurdo. Uma possibilidade real de inflexão histórica: tecnologia aliada ao bem-estar, poder su...

O Erro de Querer Ser Grande Sozinho

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  Certa vez, disse a um amigo que a humildade atravessa todos os níveis hierárquicos e, por isso, talvez não seja um traço local da história humana, mas algo mais amplo — possivelmente estrutural à própria organização da vida inteligente. Ele reagiu com surpresa e discordou prontamente, afirmando que tal virtude pertenceria apenas às circunstâncias específicas da Terra e dos homens. A objeção me acompanhou. A vida é emergente. Onde quer que surja, parte de ingredientes semelhantes, que se combinam de modos distintos conforme o contexto. A evolução fornece a chave. Quando a vida alcança a inteligência, a disputa por energia, as estratégias de sobrevivência e a necessidade de coordenação entre indivíduos conduzem, quase inevitavelmente, à estratificação social. Onde há hierarquia, há comando e submissão. Onde há competição, surgem vencedores e vencidos — e, com eles, atitudes correspondentes. Desses polos emergem a modéstia e a arrogância, em escalas ajustadas à posição que cada ser ...

Oceano de som!!

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  Na natureza, a audição é questão de sobrevivência. Elefantes captam sons graves que percorrem o solo por quilômetros; morcegos se guiam na escuridão pela ecolocalização; corujas percebem os mínimos ruídos da presa na relva; golfinhos trocam informações por ondas sonoras que atravessam o oceano. Cada espécie evoluiu para escutar conforme suas necessidades: cooperar, caçar, fugir, anunciar perigo. Há uma lógica de economia: todo som revela posição, e excesso sonoro denuncia fragilidade. E, no entanto, os bem-te-vis seguem firmes — espalhafatosos, estridentes, anunciando sua presença sem pudor. Talvez seja justamente essa ousadia sonora o presente que nos oferecem como exceção à regra: um alarme alegre contra o cinza do mundo. Para o ser humano, ouvir é tão vital quanto para os demais, mas a escuta não se limita à sobrevivência. Ela aparece também nos gestos cotidianos: na polidez, na empatia, no afeto. Ouvir com atenção quase sempre traz informação nova — às vezes sobre o outro, às...

Canto para a nossa morte!

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                                                        Em Canto para minha morte , Raul Seixas enumera possíveis encontros com o fim, mas expressa o desejo de recebê-lo em sua melhor versão. Cada um idealiza a sua, mas creio que todos, no fundo, querem encontrar sentido, ou uma centelha de paz, antes desse momento derradeiro. “Um acidente de carro O coração que se recusa a bater no próximo minuto A anestesia mal aplicada A vida mal vivida A ferida mal curada A dor já envelhecida O câncer já espalhado e ainda escondido Ou até, quem sabe, um escorregão idiota Num dia de sol, a cabeça no meio-fio Oh morte, tu que és tão forte Que matas o gato, o rato e o homem Vista-te com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar”                Alguns vivem plenamente, constroem família,...