Fora do trono
A velocidade das transformações desafia o homem a se ultrapassar. O problema é que ultrapassar a si mesmo não deveria significar viver sem compreender os próprios movimentos, sem saborear a vida, ou construir com outros um mundo habitável para quem está aqui e para quem ainda virá. Nossos corpos e nossas disposições foram moldados num ritmo de mudanças muito mais lento, num planeta em que os ciclos levavam eras para se alterar, permitindo adaptações dos seres a cada habitat. Viemos de um tempo em que a noite ainda era noite, a distância ainda era distância, e a espera ainda fazia parte da forma humana de existir. Como todo animal, sempre disputamos energia, abrigo, espaço e continuidade. A diferença é que nossa espécie aprendeu a decifrar e dobrar forças que antes pareciam divinas ou inalcançáveis. A cultura, a técnica, a linguagem e a memória acumulada nos deram outro tipo de poder: o de modificar o ambiente, suspender parte das antigas pressões e redesenhar o campo em que nossa...