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Muitos versos

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Há vidas que não sabemos que perdemos. Não as que terminam com funerais, mas as que evaporam nos “quases”. O carro que freou um metro antes. O exame que voltou normal. O voo que atrasou e, por isso, não foi o mesmo. A curva feita devagar. A mensagem respondida a tempo. Cada um desses instantes poderia ter sido o último — e não foi. Seguimos. Como se fosse natural. Como se fosse garantido. Na metade do século XX, um jovem físico chamado Hugh Everett III propôs algo que soava ficção: talvez o universo não escolha um resultado quando algo é medido. Talvez todos aconteçam. O mundo não colapsaria para uma única história; ele se ramificaria em muitas. Cada possibilidade compatível com as leis físicas continuaria existindo, apenas em ramos diferentes. A ideia foi recebida com frieza. Décadas depois, ganharia respeito e passaria a integrar seriamente o debate sobre os fundamentos da mecânica quântica. Everett não viveu para assistir à consagração de sua proposta. Morreu aos cinquenta e um anos...

Sem plateia

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Ninguém muda de vida no instante em que acha que vai mudar. A mudança costuma acontecer enquanto outra coisa está sendo feita. O tempo de preparo é um ingrediente que quase nunca conseguimos controlar. A receita completa não cabe no planejamento, embora ele sirva de guia. Ela incorpora acontecimentos, leva em conta atualizações do mundo. Lembra que não jogamos sozinhos. Ninguém tem a mesma perspectiva, porque cada um atravessou um caminho. O Chef Universo tem um modo de preparo único: Uma pitada de conversa num encontro rápido. Duas colheres de coragem num blefe sem plateia, sem holofotes. Só você e o mundo sabem. Uma xícara de oportunidades perdidas porque a cabeça estava ocupada demais ensaiando respostas para críticas que talvez nunca venham. O corpo vive no presente. A cabeça vive numa audiência imaginária. Curioso como a plateia interna nunca se atrasa. Sempre pronta para julgar a frase que ainda nem foi dita, o gesto que ainda nem aconteceu. Escolhas ainda em maturação ...

Rotatórias de Saigon

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                                      Cheirava a óleo queimado, fritura antiga e alguma flor invisível vendida duas ruas atrás. O capacete fervia os miolos. O suor não corria: estacionava. Poeira das obras grudava na língua. Diesel nos pulmões. E, apesar disso, havia um perfume doce atravessando tudo — como se a cidade lembrasse, a cada esquina, que não era só coisa. Nada de perfeição: irmã de Bangkok e São Paulo, mais arborizada, com um charme que dispensa completas traduções, mas recheada de elegâncias discretas. Não sei bem o dia em que me diverti mais aqui, mas pode ter sido logo na chegada, quando, apressado para sair do hotel, fui convidado pelos vizinhos a sentar na roda deles. Aceitei mais para não fazer desfeita, ainda por cima no apito inicial. Estava inquieto para andar, conhecer. Eles, mais curiosos ainda, perguntavam tudo. Quando disse ser brasileiro, disp...

Everything Is Looking for Someone

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A receita de sonhos doces esconde um ingrediente quase sempre esquecido. Costumamos apostar tudo nos próprios planos, como se a satisfação brotasse sozinha do esforço e da vontade de determinar o futuro. Duas forças opostas não se anulam: produzem. Avanço e retração. Abundância e falta. Aproximação e recuo. Na receita não há harmonia pronta — há procura. O movimento nasce da necessidade. Dela brotam alianças improváveis, escândalos morais, pares que incomodam porque expõem aquilo que preferimos não ver: o velho e a jovem, a rica e o pobre, o dominador e o entregue, o que busca abrigo e o que quer ser casa. Mesmo na aparente perfeição, o deslocamento para a união só se dá visando a complementariedade.  O telefone fica sobre a mesa, virado para cima. Não há urgência declarada. Mas, em algum momento ele é olhado de novo, depois recolocado no mesmo lugar. Nada aparece na tela. O gesto se repete sem decisão consciente. Não muda o objeto, mas muda quem espera. Há décadas, uma canção po...

Sonrisal Cósmico

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Duas pastilhas efervescentes, quando colocadas juntas no centro de um copo d’água, começam a se dissolver quase ao mesmo tempo. À medida que borbulham, afastam-se lentamente uma da outra, empurradas pelas próprias reações químicas, até parar em lados opostos do copo, separadas pela água que aos poucos ganha cor. Cada uma passa a desenhar sua constelação de bolhas, seu domínio transitório. As frentes se expandem, encontram-se, interferem, até que o líquido inteiro se torne turvo e ativo — mas não instantaneamente. Cada ponto do copo recebe primeiro uma notícia, depois outra. Essa demora é tudo. O universo parece operar como uma sucessão de chegadas, encontros e desencontros. Cada coisa só passa a existir para as demais depois das interações que a fazem alcançar outros lugares. A realidade se escreve em ondas de atualização, avançando até o limite onde a informação ainda pode se propagar. A luz marca esse ritmo. Para qualquer corpo com massa, ela percorre a distância no menor intervalo c...