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O meio invisível

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No ônibus noturno que saía da cidade grande com pressa de chegar a lugar nenhum, havia uma linha invisível. Ela não estava pintada no tecido do assento. Não tinha fita adesiva, nem aviso luminoso. Mas todos sabiam que existia. O meio. Artur entrou carregando duas malas e uma teoria social. A mais pesada pousou no colo como um pacto provisório. Ele calculou centímetros com a precisão de quem já organizara muito mais do que bagagens na vida. Avançou ligeiramente além da linha imaginária. Nada dramático. Um gesto técnico. Um sutil desincentivo a pessoas grandes e com mais bagagens.  Era uma política preventiva. Evitava o espelho de sua condição. Se viesse alguém pequeno, leve, desarmado de malas, ele ajustaria. Mas caso viesse alguém proporcional. Veio. Um homem largo, malas abundantes, expressão de quem já escolhera antes de escolher. Sentou-se ao lado com a naturalidade de quem paga imposto e não pede desculpas. Na irritação de momento Artur olhou pra janela e deixou tudo co...

Sem plateia

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Ninguém muda de vida no instante em que acha que vai mudar. A mudança costuma acontecer enquanto outra coisa está sendo feita. O tempo de preparo é ingrediente que quase nunca controlamos. A receita não cabe no planejamento — ele apenas orienta. O resto incorpora acontecimentos, absorve o mundo em movimento. Não cozinhamos sozinhos. Cada um contribui com novidade porque atravessou um caminho diferente. O Chef Universo tem um modo de preparo único: uma pitada de conversa num encontro rápido; duas colheres de coragem num blefe sem holofotes — se der certo, só você e o mundo saberão; uma xícara de oportunidades perdidas porque a cabeça estava ocupada demais ensaiando respostas para críticas que talvez nunca venham. O corpo vive no presente. A cabeça vive em narrativas não lineares, numa audiência imaginária. Uma plateia interna nunca se atrasa. Sempre pronta para julgar a frase que ainda nem foi dita, o gesto que ainda nem aconteceu. Escolhas ainda em maturação são varridas por ...

Rotatórias de Saigon

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                                      Cheirava a óleo queimado, fritura antiga e alguma flor invisível vendida duas ruas atrás. O capacete fervia os miolos. O suor não corria: estacionava. Poeira das obras grudava na língua. Diesel nos pulmões. E, apesar disso, havia um perfume doce atravessando tudo — como se a cidade lembrasse, a cada esquina, que não era só coisa. Nada de perfeição: irmã de Bangkok e São Paulo, mais arborizada, com um charme que dispensa completas traduções, mas recheada de elegâncias discretas. Não sei bem o dia em que me diverti mais aqui, mas pode ter sido logo na chegada, quando, apressado para sair do hotel, fui convidado pelos vizinhos a sentar na roda deles. Aceitei mais para não fazer desfeita, ainda por cima no apito inicial. Estava inquieto para andar, conhecer. Eles, mais curiosos ainda, perguntavam tudo. Quando disse ser brasileiro, disp...

Everything Is Looking for Someone

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A receita de sonhos doces esconde um ingrediente quase sempre esquecido. Costumamos apostar tudo nos próprios planos, como se a satisfação brotasse sozinha do esforço e da vontade de determinar o futuro. Duas forças opostas não se anulam: produzem. Avanço e retração. Abundância e falta. Aproximação e recuo. Se harmonia pronta fosse o tom na natureza, não viveríamos num universo em mutação. O motor é a procura. O movimento nasce da necessidade. Dela brotam alianças improváveis, escândalos morais, pares que incomodam porque expõem aquilo que preferimos não ver: o velho e a jovem, a rica e o pobre, o dominador e o entregue, o que busca abrigo e o que quer ser casa. Mesmo na aparente perfeição, o deslocamento para a união só se dá visando a complementariedade.  O telefone fica sobre a mesa, virado para cima. Não há urgência declarada. Mas, em algum momento ele é olhado de novo, depois recolocado no mesmo lugar. Nada aparece na tela. A cena se repete sem decisão consciente. Não muda o ...

Sonrisal Cósmico

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Duas pastilhas efervescentes, quando colocadas juntas no centro de um copo d’água, começam a se dissolver quase ao mesmo tempo. À medida que borbulham, afastam-se lentamente uma da outra, empurradas pelas próprias reações químicas, até parar em lados opostos do copo, separadas pela água que aos poucos ganha cor. Cada uma passa a desenhar sua constelação de bolhas, seu domínio transitório. As frentes se expandem, encontram-se, interferem, até que o líquido inteiro se torne turvo e ativo — mas não instantaneamente. Cada ponto do copo recebe primeiro uma notícia, depois outra. Essa demora é tudo. O universo parece operar como uma sucessão de chegadas, encontros e desencontros. Cada coisa só passa a existir para as demais depois das interações que a fazem alcançar outros lugares. A realidade se escreve em ondas de atualização, avançando até o limite onde a informação ainda pode se propagar. A luz marca esse ritmo. Para qualquer corpo com massa, ela percorre a distância no menor intervalo c...