Postagens

A linha

Imagem
No ônibus noturno que saía cheio da cidade grande com pressa de chegar a lugar nenhum, havia uma linha invisível. Todos sabiam da existência do meio, mesmo sem linhas pontilhadas.  Artur entrou carregando duas mochilas e uma teoria social. A maior pousou no colo como um pacto provisório. Ele calculou centímetros com a precisão de quem já organizara muito mais do que bagagens na vida. Avançou ligeiramente além da linha imaginária. Nada escandaloso.  Um sutil desincentivo a pessoas grandes e com mais bagagens.  Era uma política preventiva. Evitava o espelho de sua condição. Se viesse alguém pequeno, leve, desarmado de malas, ele ajustaria. Mas caso viesse alguém proporcional. Veio. Um homem largo, malas abundantes, expressão de quem já escolhera antes de escolher. Sentou-se ao lado com a naturalidade de quem paga e não pede explicações. Na irritação de momento Artur olhou pra janela e deixou tudo como estava. Passou um minuto. — Temos um problema — disse o homem, edu...

Rotatórias de Saigon

Imagem
                                      Cheirava a óleo queimado, fritura antiga e alguma flor invisível vendida duas ruas atrás. O capacete fervia os miolos. O suor não corria: estacionava. Poeira das obras grudava na língua. Diesel nos pulmões. E, apesar disso, havia um perfume doce atravessando tudo — como se a cidade lembrasse, a cada esquina, que não era só coisa. Nada de perfeição: irmã de Bangkok e São Paulo, mais arborizada, com um charme que dispensa completas traduções, mas recheada de elegâncias discretas. Não sei bem o dia em que me diverti mais aqui, mas pode ter sido logo na chegada, quando, apressado para sair do hotel, fui convidado pelos vizinhos a sentar na roda deles. Aceitei mais para não fazer desfeita, ainda por cima no apito inicial. Estava inquieto para andar, conhecer. Eles, mais curiosos ainda, perguntavam tudo. Quando disse ser brasileiro, disp...

Everything Is Looking for Someone

Imagem
A receita de sonhos doces esconde um ingrediente quase sempre esquecido. Costumamos apostar tudo nos próprios planos, como se a satisfação brotasse sozinha do esforço e da vontade de determinar o futuro. Duas forças opostas não se anulam: produzem. Avanço e retração. Abundância e falta. Aproximação e recuo. Se harmonia pronta fosse o tom na natureza, não viveríamos num universo em mutação. O motor é a procura. O movimento nasce da necessidade. Dela brotam alianças improváveis, escândalos morais, pares que incomodam porque expõem aquilo que preferimos não ver: o velho e a jovem, a rica e o pobre, o dominador e o entregue, o que busca abrigo e o que quer ser casa. A taça de ouro guarda em suas imperfeições o registro das carências. E, mesmo na aparente perfeição, o deslocamento para a união só se dá visando à complementariedade. O telefone fica sobre a mesa, virado para cima. Não há urgência. Mas, em algum momento, ele é olhado de novo, depois recolocado no mesmo lugar. Nada aparece na t...

O Erro de Querer Ser Grande Sozinho

Imagem
  Certa vez, disse a um amigo que a humildade atravessa todos os níveis hierárquicos e, por isso, talvez não seja um traço local da história humana, mas algo mais amplo — possivelmente estrutural à própria organização da vida inteligente. Ele reagiu com surpresa e discordou prontamente, afirmando que tal virtude pertenceria apenas às circunstâncias específicas da Terra e dos homens. A objeção me acompanhou. A vida é emergente. Onde quer que surja, parte de ingredientes semelhantes, que se combinam de modos distintos conforme o contexto. A evolução fornece a chave. Quando a vida alcança a inteligência, a disputa por energia, as estratégias de sobrevivência e a necessidade de coordenação entre indivíduos conduzem, quase inevitavelmente, à estratificação social. Onde há hierarquia, há comando e submissão. Onde há competição, surgem vencedores e vencidos — e, com eles, atitudes correspondentes. Desses polos emergem a modéstia e a arrogância, em escalas ajustadas à posição que cada ser ...

Toma lá,da cá !! Tit for Tat

Imagem
  As relações entre todos os seres, incluindo as humanas, se sustentam em um delicado jogo de trocas. Damos algo, recebemos algo. Às vezes, esperamos uma reciprocidade direta; outras, uma resposta tardia, mas ainda assim justa. Esse equilíbrio entre ajudar e recusar, entre confiar e proteger-se, é tão antigo quanto a própria ideia de comunidade. No entanto, em um mundo onde o altruísmo — a entrega sem esperar nada em troca — raramente reina soberano, a cooperação frequentemente emerge de lugares inesperados, sustentada não por pura bondade, mas por regras básicas de sobrevivência compartilhada. Um primata que coça as costas de outro ou um gato que lambe seu parceiro, limpando áreas inacessíveis, estabelece vínculos sociais importantes. Essas ações, embora pareçam beneficiar apenas o outro no momento, geralmente retornam como cuidado ou proteção futura. Mesmo sem intenção consciente, essas práticas tendem a reforçar laços que beneficiam ambos. Quando esse retorno não ocorre, a ret...