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Fora do trono

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  A velocidade das transformações desafia o homem a se ultrapassar. O problema é que ultrapassar a si mesmo não deveria significar viver sem compreender os próprios movimentos, sem saborear a vida, ou construir com outros um mundo habitável para quem está aqui e para quem ainda virá. Nossos corpos e nossas disposições foram moldados num ritmo de mudanças muito mais lento, num planeta em que os ciclos levavam eras para se alterar, permitindo adaptações dos seres a cada habitat. Viemos de um tempo em que a noite ainda era noite, a distância ainda era distância, e a espera ainda fazia parte da forma humana de existir. Como todo animal, sempre disputamos energia, abrigo, espaço e continuidade. A diferença é que nossa espécie aprendeu a decifrar e dobrar forças que antes pareciam divinas ou inalcançáveis. A cultura, a técnica, a linguagem e a memória acumulada nos deram outro tipo de poder: o de modificar o ambiente, suspender parte das antigas pressões e redesenhar o campo em que nossa...

A terceira margem

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O livre-arbítrio costuma ser tratado como uma porteira emperrada: ou abre totalmente, ou prende a passagem. De um lado, ficam os que acreditam que decidimos a própria rota. Do outro, os que enxergam em cada evento apenas o empurrão final de forças anteriores a nós. A vida não atravessa fendas de modo tão previsível. Força passagens, entorta trancas, pula cercas. O caminho de nenhum rio é reto. Entre a ideia de que somos totalmente livres e a de que tudo já está escrito, abre-se um espaço menos óbvio: uma margem intermediária. As ideias materialistas mais reducionistas conduzem facilmente ao entendimento de que tudo é determinado. O mundo físico se arranjaria obedecendo a leis; a biologia emergiria da química; a mente, da biologia; e nossas decisões seriam apenas o último elo visível de uma cadeia remota de acontecimentos que condicionam os próximos. Na direção oposta, muitos percebem na aparente liberdade humana de decidir uma prova de que cada indivíduo determina seu próprio caminho. ...

DoidiMai

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No colégio Zeta Jota, o evento já tinha virado tradição. Todo dia 2 de maio, os professores trocavam de lugar: a professora de Literatura dava aula de Matemática, o de Física enfrentava a Geografia, o de Biologia se aventurava pela História, e assim por diante. A brincadeira começara cerca de cinco anos antes, quando Marcos, professor de Biologia, entrou na sala dos professores com a ideia do rodízio. Tinha ouvido dois alunos fazendo graça com a data: “dois de maio”, diziam eles, “DoideMai”. Bastou isso para que Marcos enxergasse ali uma oportunidade. Propôs um dia diferente, meio louco, meio lúdico, valendo alguns pontos extras para salvar os desesperados e, de quebra, despertar, por outro caminho, o interesse de quem já andava perdido no andamento ou no entusiasmo pela matéria. De algum modo, a experiência aproximava alunos e professores. Primeiro, porque quebrava a rotina. Segundo, porque era irresistível ver seus mestres em território estranho, tentando explicar assuntos sobre os q...

Duas

Entre uma e duas. Escolhi duas. A scooter, ofendida, resolveu não voltar. Suei em vão. Foram as mãos delas, mesmo cansadas, que a fizeram respirar.

A linha

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No ônibus noturno que saía cheio da cidade grande com pressa de chegar a lugar nenhum, havia uma linha invisível. Todos sabiam da existência do meio, mesmo sem linhas pontilhadas.  Artur entrou carregando duas mochilas e uma teoria social. A maior pousou no colo como um pacto provisório. Ele calculou centímetros com a precisão de quem já organizara muito mais do que bagagens na vida. Avançou ligeiramente além da linha imaginária. Nada escandaloso.  Um sutil desincentivo a pessoas grandes e com mais bagagens.  Era uma política preventiva. Evitava o espelho de sua condição. Se viesse alguém pequeno, leve, desarmado de malas, ele ajustaria. Mas caso viesse alguém proporcional. Veio. Um homem largo, malas abundantes, expressão de quem já escolhera antes de escolher. Sentou-se ao lado com a naturalidade de quem paga e não pede explicações. Na irritação de momento Artur olhou pra janela e deixou tudo como estava. Passou um minuto. — Temos um problema — disse o homem, edu...

Rotatórias de Saigon

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                                      Cheirava a óleo queimado, fritura antiga e alguma flor invisível vendida duas ruas atrás. O capacete fervia os miolos. O suor não corria: estacionava. Poeira das obras grudava na língua. Diesel nos pulmões. E, apesar disso, havia um perfume doce atravessando tudo — como se a cidade lembrasse, a cada esquina, que não era só coisa. Nada de perfeição: irmã de Bangkok e São Paulo, mais arborizada, com um charme que dispensa completas traduções, mas recheada de elegâncias discretas. Não sei bem o dia em que me diverti mais aqui, mas pode ter sido logo na chegada, quando, apressado para sair do hotel, fui convidado pelos vizinhos a sentar na roda deles. Aceitei mais para não fazer desfeita, ainda por cima no apito inicial. Estava inquieto para andar, conhecer. Eles, mais curiosos ainda, perguntavam tudo. Quando disse ser brasileiro, disp...