O meio invisível


No ônibus noturno que saía da cidade grande com pressa de chegar a lugar nenhum, havia uma linha invisível.

Ela não estava pintada no tecido do assento.
Não tinha fita adesiva, nem aviso luminoso.
Mas todos sabiam que existia.

O meio.

Artur entrou carregando duas malas e uma teoria social. A mais pesada pousou no colo como um pacto provisório. Ele calculou centímetros com a precisão de quem já organizara muito mais do que bagagens na vida. Avançou ligeiramente além da linha imaginária. Nada dramático. Um gesto técnico. Um sutil desincentivo a pessoas grandes e com mais bagagens. 

Era uma política preventiva. Evitava o espelho de sua condição.

Se viesse alguém pequeno, leve, desarmado de malas, ele ajustaria.

Mas caso viesse alguém proporcional.

Veio.

Um homem largo, malas abundantes, expressão de quem já escolhera antes de escolher. Sentou-se ao lado com a naturalidade de quem paga imposto e não pede desculpas.

Na irritação de momento Artur olhou pra janela e deixou tudo como estava.

Passou um minuto.

— Temos um problema — disse o homem, educado como um relatório.

Artur já sabia qual.

— Existe um meio. E você ultrapassa.

Era verdade. Centímetros são pequenos até que se tornem argumentos.

— Eu também posso colocar minha mala aqui e ficarmos empurrando por horas — completou o homem. — Eu paguei um ticket. Você também.

O mundo, às vezes, cabe numa frase dessas.

Artur avaliou o cenário. Estava ligeiramente errado. Mas sentia que também tinha um ponto. Reconheceu a formalidade.

— Você está mais certo do que eu. 

Ajustou.

Mas, seguiu com sua tese de equilíbrio.

— Só acho que poderia ter lido o ambiente. Somos os dois maiores e mais carregados do ônibus. Havia outros lugares.

O homem respondeu simples:

— Quero ver minha esposa daqui.

Artur olhou para a frente, onde a mulher já organizava sua própria geografia emocional.

Pensou rápido.

— Então, pelo benefício visual de observar alguém com quem convive diariamente, escolhemos  o desconforto coletivo por horas.

Era uma frase elegante demais para a temperatura do ônibus. 

O homem não respondeu. Nem precisava.

O ônibus seguiu.

Artur passou o restante da viagem ruminando o conceito de bem comum. Em sua teoria, pessoas grandes com malas grandes deveriam procurar o ponto de menor atrito. Havia nisso algo quase moral. Tem gente que instintivamente já procura a bola dividida. 

Mas o outro homem tinha uma moral diferente: proximidade imediata. Conforto conjugal acima da engenharia social.

Ambos estavam certos. Ambos estavam errados. Ambos estavam apertados.

Horas depois, já quase chegando, o assento ao lado da esposa vagou. O homem se levantou, recolheu suas malas e, ao passar, disse algo como:

— Agora ficou bom.

Artur, de fones, acenou um polegar neutro.

Não houve reconciliação filosófica.
Apenas redistribuição da gravidade.

A linha invisível não estava no tecido.
Estava ali, entre duas convicções que não cabiam no mesmo assento.

De um lado, a estratégia silenciosa do menor atrito.
Do outro, a prioridade de ver a própria mulher.

Era a distância entre a mão invisível de Adam Smith e o cálculo do pub em Mente Brilhante.

O ônibus segue.
E todos chegam um pouco amassados.

Artur desceu com as duas malas.
Envergonhado pelo erro inicial, mas com a sensação — talvez ilusória — de que também deixara algo no outro.

O meio continuava invisível. Cada um com sua régua.

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