Everything Is Looking for Someone

A receita de sonhos doces esconde um ingrediente quase sempre esquecido. Costumamos apostar tudo nos próprios planos, como se a satisfação brotasse sozinha do esforço e da vontade de determinar o futuro.

Duas forças opostas não se anulam: produzem. Avanço e retração. Abundância e falta. Aproximação e recuo. Se harmonia pronta fosse o tom na natureza, não viveríamos num universo em mutação. O motor é a procura. O movimento nasce da necessidade. Dela brotam alianças improváveis, escândalos morais, pares que incomodam porque expõem aquilo que preferimos não ver: o velho e a jovem, a rica e o pobre, o dominador e o entregue, o que busca abrigo e o que quer ser casa. A taça de ouro guarda em suas imperfeições o registro das carências. E, mesmo na aparente perfeição, o deslocamento para a união só se dá visando à complementariedade.

O telefone fica sobre a mesa, virado para cima. Não há urgência declarada. Mas, em algum momento, ele é olhado de novo, depois recolocado no mesmo lugar. Nada aparece na tela. A cena se repete sem decisão consciente. O objeto é o mesmo, quem espera já é outro.

Há décadas, uma canção pop desmontou o enigma com simplicidade desconcertante: por onde quer que viajemos, alguns desejarão usar você; outros, por você serem usados. No arremate do ajuste qualitativo, segue o de intensidade: alguns querem abusar de você; outros, serem abusados.

São palavras de conexão e sensualidade implícita narrando verdades pouco confortáveis. Nada ali caminha sozinho — mas sempre que a música do Eurythmics invade as pistas, os sapatos pedem dança.

Romantismo nunca foi o eixo principal das alianças; pesa mais para a existência a adequação que favorece projetos maiores do que o sonho individual. Com essa dinâmica ela equilibra mais de uma vez; e economia também é forma de permanência. O desejo brota de situações favoráveis ou atraentes, mas muitos não enxergam as reais motivações para a escalada romântica, enquanto outros julgam com moralismo. Composições maiores, no entanto, frequentemente se alinham com caminhos fluentes, com saldos energéticos.

A letra de Sweet dreams registra o empurrão inicial, não apaga a pulsão de vida, nem confirma determinismo absoluto. Amor pode nascer ali, junto do tesão e de todo tipo de impulso. Na vida, cabe a cada um ajustar a vela considerando o vento e a correnteza. Ansiando pelo melhor, com a consciência de que tudo pode acontecer, já que somos parte do processo que tudo contempla. A margem de alteração no ponto é mínima, mas os efeitos em cascata das múltiplas micro correções connscientes podem nos conduzir ao encontro do que desejamos. Entre todos os caminhos, há uma rota melhor — mas a diversidade não morre por isso.

Admiração é afrodisíaco. Para uns, capacidade; para outros, delicadeza; cada sexo tropeça em encantos que não entende.

Há quem inverta o velho provérbio e prefira “mal acompanhado do que só”, como cantou Erasmo Carlos. O impulso de aproximação, porém, não absolve qualquer vínculo, apesar de fornecer o diagnóstico da motivação. Nem toda busca é naturalidade; às vezes nasce do medo do silêncio ou do frio na barriga de ficar consigo. Uma célula tende a multiplicar, isso é orgânico; quando o processo sai do controle, chamamos de câncer. Atrações naturais, mesmo quando o encontro não corresponde ao projetado — esse ideal inflado que pede o máximo, confundindo o que é com o que gostaria de ser enquanto oferece apenas fragmentos — podem produzir algo construtivo. Uma forma possível de convivência, em que dois conseguem manter algo que sozinhos não manteriam por muito tempo. Nesse tempo, os mais espertos enxergam como juntos podem criar espaço.

Não sabemos ao certo tudo o que queremos, mas os desejos sempre têm suas motivações — secretas ou sutis. Em nosso subsolo acessamos, do centro, impulsos vindos de pontos variados. Dependendo do casamento com os acontecimentos, verdades se tornam sentimentos, informações aguçam as buscas e promovem receptividade.

Alguns se reprimem, outros abraçam. Alguns se recarregam em meio aos demais, outros na solitude. Mas mesmo esses precisam, uma hora ou outra, de banho de mundo.

O humano, em suas alianças tortas e desejos desconcertantes, é a miniatura sensível de interconexões mais amplas: sistemas que também buscam porque precisam. Como se a mesma música atravessasse não apenas décadas, mas escalas — do plasma primordial às topadas de fusão nuclear, das ligações químicas aos convites aceitos para sentar juntinho.

Se a realidade opera por encaixes e tensões, a tentativa demasiada de impor direção tende a produzir mais atrito do que acordo. A inteligência humana oferece margem de manobra, não soberania absoluta. Entre a vontáde controlar e a paciência de observar, a segunda abre veredas para usos e abusos consensuais muito mais interessantes. Dali, a nascente do caminho mais estável surge cristalina.

Não precisamos viver dentro do sonho de ninguém, mas encaixar os nossos e os dos outros com paciência e reconhecimento das condições é navegar a travessia com sabedoria e elegância.

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Adendo: Guimarães Rosa em seu sonho de doce de leite ajuda a compreender em três passagens diferentes:

"Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece."

"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar se querendo o mal, por principiar. Esses homens. Todos puxam o mundo para si, para consertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo."

"Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe."

                                    Who am I to disagree?

"Os fenômenos inclinam-se a juntar-se pelo caminho de menor esforço, guiados por suas características imanentes, pela própria natureza dos processos." (comentário nos textos do I Ching)



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