Everything Is Looking for Someone
A receita de sonhos doces esconde um ingrediente quase sempre esquecido. Costumamos apostar tudo nos próprios planos, como se a satisfação brotasse sozinha do esforço e da vontade de determinar nosso futuro.
Duas forças opostas não se anulam: produzem. Avanço e retração. Abundância e falta. Aproximação e recuo. Na receita não há harmonia pronta — há procura. O movimento nasce da necessidade. Dela brotam alianças improváveis, casais perfeitinhos, escândalos morais, pares que incomodam porque expõem aquilo que preferimos não ver: o velho e a jovem, a rica e o pobre potente, o dominador e o entregue, o que busca abrigo e o que quer ser casa.
Há décadas, uma canção pop desmontou o enigma com simplicidade genial: por onde quer que viajemos, alguns desejarão usar você; outros, por você serem usados. No arremate do ajuste qualitativo, segue o de intensidade: alguns querem abusar; outros, serem abusados.
O entusiasmo provocado pela melodia não poderia estar melhor casado com palavras de conexão e sensualidade implícita, mas narrando verdades pouco confortáveis. Nada ali caminha sozinho — mas sempre que a música do Eurythimics toca os sapatos pedem dança.
Romantismo nunca foi o eixo principal das alianças; pesa mais a adequação que favorece projetos maiores do que o sonho individual, mesmo que a taça de ouro apresente defeitos intrínsecos. O desejo brota de situações favoráveis ou atraentes, mas muitos não enxergam as reais motivações para a escalada romântica, enquanto outros julgam com moralismo. Composições maiores, no entanto, frequentemente se alinham com caminhos fluentes, com saldos energéticos.
A letra registra o empurrão inicial, não apaga a pulsão de vida. Amor também nasce ali, junto do tesão e de todo tipo de interesse. A admiração de uma mulher pela capacidade de um homem pode literalmente derretê-la. Já os homens, nunca compreendem inteiramente o feitiço da doçura e da beleza — apenas sentem o corpo reagir à demanda por aproximação.
Não sabemos ao certo tudo o que queremos, mas os desejos sempre têm suas motivações — profundas e sutis ao mesmo tempo. Em nosso subsolo acessamos, do centro, impulsos vindos de pontos variados e, dependendo do casamento com os acontecimentos, verdades se tornam sentimentos, informações aguçam as buscas e promovem receptividade. Alguns se reprimem, outros abraçam. Alguns se recarregam em meio aos demais, outros em solitude. Mas mesmo esses precisam, uma hora ou outra, de banho do mundo.
Expansão e retração. Assimetrias que se procuram porque fazem melhor sentido em conjunto e melhor ainda alternadas pelo tempo, que cria espaço.
O humano, em suas alianças tortas e desejos desconcertantes, é a miniatura sensível de interconexões mais amplas: sistemas que também buscam porque precisam. Como se a mesma música atravessasse não apenas décadas, mas escalas — do plasma primordial às topadas de fusão nuclear, das ligações químicas aos convites aceitos para sentar pertinho.
Se a realidade opera por encaixes e tensões, a tentativa de impor direção tende a produzir mais atrito do que acordo. A inteligência humana oferece margem de manobra, não soberania absoluta. Entre o impulso de controlar e a paciência de observar, a segunda abre veredas para usos e abusos consensuais muito mais naturais. Dali, a nascente do caminho mais estável surge cristalina.
Guimarães Rosa em seu sonho de doce de leite ajuda a compreender:
"Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja. O senhor rela faca em faca – e afia – que se raspam. Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola. Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece. Antesmente preciso. Deus não se comparece com refe, não arrocha o regulamento. Pra quê? Deixa: bobo com bobo – um dia, algum estala e aprende: esperta. Só que, às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta..."
Who am I to disagree?
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