Mask!
Espelho, espelho meu...
No conto, a pergunta era repetida com obsessão: existe alguém mais bela do que eu? A madrasta forçava a barra, mas no fundo sabia a resposta — e se irritava com a verdade. A comparação a feria, a ambição a cegava, e a inveja transformava qualquer possível beleza em seu oposto.
Hoje, desenhamos cuidadosamente o que o espelho deve refletir. Mas será que não estamos nos tornando bons demais em parecer bons? Não que seja condenável apresentar-se com alguma pompa e circunstância ou sinalização de força, dependendo da situação. Na natureza observamos exemplos de animais que se beneficiam por parecerem maiores. O pavão, com sua bela cauda que pode causar confusão e erro de avaliação em predadores, é um exemplo clássico. Vários outros animais quando em perigo, adotam uma postura ampliativa que inibe ataques. No mundo competitivo humano, algumas táticas similares podem ser bem-vindas, desde que não nos distanciemos tanto do equilíbrio.
Um mise‑en‑scène pode ser útil, mas o truque se perde sem autenticidade na conduta habitual. É como um jogador de poker blefar toda mão: todos os outros observam, percebem que aquela frequência não pode coincidir com a realidade — e, uma hora, a casa cai. Blefar sempre é, no fundo, admitir que a própria mão não basta.
Performance é a palavra símbolo de uma era em que todos correm sem saber muito para onde, nem o que realmente ganham com isso. Nas redes, no trabalho, na rua, o esforço não é mais apenas por ser ouvido, mas por ser visto — e curtido. Em meio a essa orquestra de egos, onde cada um toca seu solo bem ensaiado, sobra pouca música e muito beijo dissonante na própria imagem.
Contardo Calligaris disse, numa entrevista: “o narcisista não é aquele que se ama, ou acredita que é digno de amor, mas ele crê que pode ser amado se parecer digno de amor” — e, nessa loucura, vicia‑se na autoimagem, esforçando‑se para melhorar sua casca. Busca atenção para confirmar sua maior dúvida: será que realmente tem valor? Falta‑lhe autoconfiança.
Alguns fingem bem a segurança que não possuem — e isso representa enorme perigo, já que a maioria das pessoas é passiva demais. Assim, narcisistas ousados e inseguros chegam muitas vezes a posições de liderança por representarem bem, e alguns fazem isso com maestria, calculam com precisão a imagem que desejam passar. Conquistada a posição, ditam o ritmo e difundem ainda mais a crença de que parecer basta. Seguidores vivem automaticamente em busca do que foram adestrados a desejar. Já nem se lembram mais como é simplesmente existir. Ter o privilégio de se apresentar de cara limpa, recebendo o feedback adequado do mundo, viabiliza um crescimento gradual. Para a humanidade, a onda narcísica, representa uma perda substancial. O embuste venceu como tática dominante, e a qualidade das relações deteriorou-se naturalmente, mesmo com o aumento das conexões.
A imagem que devolvemos ao mundo passou a ser tratada como produto em contínua curadoria. A autenticidade virou construção estética — até o desleixo agora é cuidadosamente calculado. Aplicativos suavizam rugas, moldam silhuetas, afinam timbres e organizam nossas ideias com slogans de autoajuda. Presidentes se preocupam mais com seu cabelo do que com o caos que geram para seu país e para o mundo, sem mencionar os riscos de guerra. A realidade virou rascunho, e o feed, versão final. Mas o excesso de edição nos esvazia e, aos poucos, vamos perdendo a voz por trás da imagem.
Nietzsche falava da vontade de potência — uma força que brota do íntimo e nos impulsiona a viver e criar. Hoje, embarcamos num sonho "lúcido" coletivo conduzido pelas demandas do sistema, do consumo e do descarte rápido.
O tesão de viver foi trocado pela vontade de aparecer.
Se todos gritam "olhe para mim!", quem ainda escuta? Quem não brilha, some. O silêncio virou falha; a hesitação, defeito gravíssimo; ser invisível é ser irrelevante. Profissões inteiras são abolidas no meio da vida produtiva, forçando migrações brutais. Isso é inevitável e é justo que cada um tente, com os elementos disponíveis, se reinventar devido a velocidade com que tudo se modifica. Mas outros, por ambição pura, percebem que há mais lucro em se expor — mesmo ao ridículo — do que em aprofundar qualquer ideia. Até os antigos introspectivos, talvez incentivados pela distância que a tela impõe, agora tentam aprender a viralizar. Mas a que custo?
Não é apenas o problema de cada um se expor em excesso. Existe um efeito colateral preocupante: para acompanhar tudo o que todos postam, gastamos tempo que poderia ser melhor aproveitado. Em 2024,
brasileiros passaram em média três horas e trinta e sete minutos por dia em redes
sociais — a terceira marca mais alta do planeta. Tempo suficiente para um
romance curto, mas gasto na lapidação da própria vitrine e no deslumbramento
com a realidade ilusória que os outros propagam. No meio dessa rolagem infinita
recebemos, forçados, propagandas calculadas para aguçar ainda mais nosso
espírito de consumo, com coisas que talvez nem precisemos.
É evidente que, num mundo de transformações drásticas, algumas adaptações são necessárias e outra muito bem‑vindas. Quem sou eu para julgar tão rigorosamente, se também cometo meus deslizes. Até mesmo uma iniciativa como essa, de escrever um texto periodicamente e publicar num blog, pode, de certa forma, se distanciar do mais equilibrado e natural.
Expor o exagero em nosso espírito de época, no entanto, é fundamental para alterarmos nossa maneira de transitar. Sabemos que é compreensível, em muitos casos, cada um, apresentar seu trabalho, arte ou simplesmente participar de um ambiente virtual amistoso — uma extensão nossa no universo digital. Onde podemos ter encontros, participar mais ativamente com amigos e familiares, realizar reflexões e aprender com tudo que nos inspire. Porém, na velocidade das transformações isso requer disciplina e atenção. O mundo atual é atrativo e trouxe inúmeros avanços, possibilidades novas e mais rápidas de conexão, aprendizado, desenvolvimento profissional, lazer, acesso à informação e à diversão que merecem ser bem aproveitados. Contudo, a linha divisória entre saudável e doentio é tênue, traiçoeira — e quase sempre alargada por quem lucra com o agito.
Quantos postam algo só para não
desaparecer do feed? Mas, seguir levianamente a máxima de que “quem é visto é lembrado” contribui para o agito geral e nos expõe à toa. Pode ser que o gesto mais
subversivo agora seja desligar a câmera e continuar respirando — inteiro, mas
fora de quadro, usando os portais digitais apenas nos momentos apropriados e de real conexão com o mais importante.
O que poderia ser uma grande dádiva — abrindo caminhos e nos conectando — pode revelar seu lado sombrio quando falta coragem de nos apresentarmos com simplicidade em busca de uma aparência de perfeição.
A máscara não
disfarça — revela. Assim como no filme encenado por Jim Carrey, o artefato mágico não
criava um personagem: potencializava o lado mais histriônico do eu. A máscara
que usamos não inventa; ela amplifica. Na vida digital, somos todos um pouco
como o personagem de Carrey: contidos por fora, pulsando por dentro, até que certa situação
nos dê a desculpa para soltar olhos arregalados e sorriso exagerado. Quanto
mais tempo a máscara fica no rosto, mais difícil lembrar onde ela começa e onde
nós terminamos. No filme, bastava aproximá‑la do rosto para que grudasse de repente; para
retirá‑la, era preciso força. Certamente um aspecto sutil pensado pelo cineasta. Quanto mais nos moldamos à imagem que vendemos, mais nos afastamos das versões imperfeitas, porém reais, que poderíamos lapidar ao reconhecer nossas habilidades e limitações. No desespero de
correr, atrasamos nossa evolução.
Bauman lembrou
que corremos sobre gelo fino: se pararmos, afundamos no próprio peso; se
corrermos demais, o gelo também quebra. Nessa pressa performática, não sobra
tempo para agradecer o que se tem, nem perceber o que se é — muito menos
desfrutar de quem amamos. Quem precisa parecer mais declara, mesmo sem
querer, que não está satisfeito com o que é, ou com o que tem, ou com quem o
acompanha.
“Publico, logo
existo” — eis o novo cogito, que certamente surpreenderia Descartes. Se antes escrevíamos
diários secretos, ruminando o essencial até nos darmos conta de nossa própria
existência, hoje só nos sentimos vivos quando declaramos ao mundo o que
comemos, pensamos ou vestimos. O algoritmo recompensa quem faz isso com
frequência, criando dependência de atenção. Se não postamos, parece que vivemos à margem. Mas será que aquilo que postamos no embalo do mundo é necessário ou traduz quem realmente somos? Quando
vivemos exclusivamente na superfície, acabamos acreditando que somos essa
superfície.
A felicidade virou plano de comunicação. O narcisismo moderno não se contenta em ser admirado: precisa ser seguido, replicado, monetizado. Seremos lembrados como a geração que treina sorrisos e ensaia olhares espontâneos. Mas, por trás das cortinas digitais, sobra um desejo tímido, quase infantil, de voltar a ser só… gente. Quando todos tentam ser o mesmo idealizado, apenas um tipo fica em evidência — e é multiplicado. O resultado? Uma multidão de cópias ruins de um original já plastificado: desfile em que todos vestem o mesmo traje, mas ninguém se reconhece.
Meu pai perdeu o próprio pai aos três anos. Carregava na carteira uma folha envelhecida — manuscrito de meu avô com orientações básicas de navegação pela vida. Eram mensagens curtas e diretas, com o peso de quem sabia não ter mais tempo para educar, mas ainda teve a sensibilidade de organizar um pequeno código de conduta saudável, fácil de ser assimilado. Para ele, aquele papel era como os cristais do Super‑Homem: conselhos do pai na fortaleza da solitude. Um dos apontamentos dizia: “Não tente parecer mais do que é.”
Se era importante há quase um século, imaginem no mundo contemporâneo. Afinal, o perigo não está em parecer pouco, mas em parecer demais — e não suportar o próprio reflexo. Podemos até convencer os outros da força, conhecimento ou recursos que não possuímos; mas, se não houver lastro, o que acontecerá nos momentos‑chave?
Nessa corrida pelo perfeccionismo de aparência, todos são pressionados pela comparação com a vida ideal dos outros. Isso pode gerar um sentimento de menos-valia em cada um ao se ver comparado com o máximo ideal e induzir a onda narcisista. Mas quem sabe ainda haja tempo de trocar um pouco de luz por sombra, um pouco de pose por pausa. A vida fica mais leve quando não precisamos prová‑la o tempo todo.
Ser bom é obra lenta, feita no escuro; parecer bom é clarão breve num palco escorregadio.
O que nosso espelho reflete? O pavão abre a cauda diante dele; o jogador de pôquer calibra o blefe observando seus próprios tiques; a máscara adere ao rosto como um vidro polido; até o gelo fino devolve nossa figura distorcida na lâmina d’água que ameaça quebrar. Em cada superfície refletora brincamos de parecer maiores, mais fortes, mais belos. Mas espelhos só sustentam imagens, não identidades. Quando o reflexo se torna morada, esquecemos de viver do lado de cá. Precisamos embaçar esse espelho — respirar sobre ele até a névoa cobrir a imagem e, então, reconhecer no vapor a chance de sermos de novo pele, não vitrine. Recolher a cauda, o blefe, a máscara, pisar devagar — e deixar que uma pitada de quietude nos devolva o contorno verdadeiro.



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