Além do Sobrenatural
Muitos compreendem o I Ching como algo estritamente ligado ao
sobrenatural, um sistema místico que beira o incompreensível. No entanto, essa
visão é, ao mesmo tempo, limitadora e desconsidera possibilidades interessantes.
Será que um conjunto de textos tão antigos e ricos em situações típicas que traduzem para o universo humano as diversas composições energéticas possíveis, pode ser reduzido apenas a
uma prática esotérica? E mais, será que o método de lançar moedas para obter
respostas realmente precisa estar restrito ao que é considerado
"mágico"?
A resposta pode estar na forma como escolhemos interagir com o I
Ching. Se nos aproximarmos dele não como um oráculo a ser obedecido cegamente,
mas como uma ferramenta de reflexão, ele pode ser surpreendentemente revelador
— tanto para autoconhecimento quanto para análise da situação que elegemos. Aqui encontramos uma ponte entre o que parece superstição e o que pode ser,
de fato, uma prática com fundamentos psicológicos e até científicos.
À primeira vista, lançar moedas para decidir um caminho parece um ato arbitrário, algo que o personagem Coringa em Batman talvez adotasse em sua filosofia caótica. Porém, quando olhamos mais de perto, percebemos que o lançamento de moedas no I Ching não é um simples "jogar dados", embora essa ideia possa ser explorada também, como veremos ao final. Mas, ele nos coloca frente a uma definição, uma decisão sugerida que nos obriga a refletir sobre o impacto do resultado, consequências possíveis e a perceber e entender melhor a forma como reagimos à essas mutações.
Essa prática, por mais simples que pareça, pode nos ajudar a enxergar
mais claramente tanto a situação quanto nós mesmos. Afinal, a surpresa do acaso
— ou da "sincronicidade", como diria Carl Gustav Jung — tem o poder
de nos revelar nuances que antes não percebíamos. O método oracular pode ser
visto além da magia, mas como um espelho que reflete e realça nosso estado
interior. Ao nos conectarmos com as possibilidades de transformação exteriores e compreendendo suas implicações e como nos sentimos e nos posicionamos a respeito, permite tomarmos decisões mais confiantes e assertivas.
No I Ching, a resposta vem em forma de poesia, cuja interpretação
conecta-se ao simbolismo maior do hexagrama ( conjunto de seis linhas que compõe a imagem). Cada linha pode ser yang (inteira, cheia, iluminada, expansiva) ou yin (vazada, escura, receptiva) e representa cada etapa no
desenvolvimento de uma situação e também reflete, simultaneamente, personagens de uma camada social. *** (Ao final coloquei algumas perspectivas e pequenas explicações sobre aspectos estruturais do Livro das Mutações para quem quiser se aprofundar)
Curiosamente, a ideia de tomar decisões seguindo processos randômicos não é nova nem nos tempos modernos e nem sempre foi levada a sério. Carl Barks, em uma de suas histórias do Pato Donald, criou o "Flipismo", uma filosofia fictícia onde o protagonista toma decisões importantes com base no lançamento de uma moeda. É fácil rir da simplicidade dessa abordagem, ainda mais que ela foi idealizada para isso. Mas, ao contrário de Donald, que simplesmente seguia o que a moeda mandasse, o I Ching, com sua profundidade simbólica e filosófica, transforma esse ato aparentemente arbitrário em algo muito mais elaborado, permitindo que nossas decisões sejam tomadas em um nível superior de entendimento da situação e de nós mesmos dentro dela. Um processo, que casa sentimento e racionalidade e a visão interna com os eventos externos.
Jung, em sua introdução ao I Ching, descreve como a sincronicidade — a
aparente coincidência significativa entre eventos interiores e exteriores — é a
chave para compreender a prática. O lançamento de moedas é apenas o gatilho
para abrir um espaço de reflexão, onde podemos explorar o significado de cada
resposta. O texto profundo e filosófico do I Ching nos guia por arquétipos
universais e situações típicas, que ressoam, no plano prático, no psicológico e no metafísico.
Decisões complexas ou assuntos sensíveis muitas vezes nos colocam em
um impasse: não sabemos como agir ou sentimos dificuldade em compartilhar essas
questões com outras pessoas. Nesse contexto, o I Ching — seja até mesmo num
simples lançamento de moedas — pode funcionar como uma espécie de terapia
reflexiva.
Ao delegar ao acaso a responsabilidade inicial de abrir
possibilidades, criamos um espaço seguro e livre para explorar nossos
pensamentos e emoções. O resultado obtido não precisa ser considerado a solução em si, mas um ponto
de partida para examinar nossas reações e sentimentos em relação a ele. Esse
processo pode ajudar a acessar camadas mais profundas do que pensamos ou sentimos,
funcionando como um espelho emocional. Ainda mais quando a sincronicidade realça
certas linhas de eventos e induzem pensamentos.
Além disso, ao ler os textos filosóficos do I Ching, seja como estudo,
seja como prática oracular meditativa, ganhamos uma perspectiva simbólica sobre
as situações que enfrentamos. Isso pode ser especialmente útil em dilemas que
envolvem complexidades humanas, como relações interpessoais, questões éticas ou
decisões de vida que nos deixam divididos.
Pesquisas e experimentos psicológicos também sugerem que abordagens
como o flipismo pode promover maior clareza mental e reduzir o estresse
associado à indecisão. Em contextos onde falar sobre o problema parece
impossível, essas práticas fornecem um espaço privado para a introspecção e até
mesmo o autoconhecimento.
O I Ching pode não ser ciência, mas sua estrutura revela
padrões que guardam relações impressionantes com processos descobertos apenas
no último século. Ele se baseia em um equilíbrio energético delicado que tem
início na dualidade primária do Yin e Yang, os polos opostos e
complementares que simbolizam a dinâmica fundamental de todos os fenômenos.
Dessa interação surgem os oito trigramas, que representam diferentes
tipos de energia e estados da natureza, e que, ao se combinarem, formam os 64
hexagramas, abrangendo teoricamente todas as possibilidades típicas de transformação. Mas o Livro das Mutações não é apenas um sistema simbólico sobre mudanças externas; ele também
reflete a posição singular do ser humano como ponto de ligação entre o que é "terreno" e o o que transcende a percepção sensorial humana, ou está além do alcance físico. O trigrama inferior de um hexagrama é
frequentemente relacionado ao interno, ao material e ao que está próximo,
enquanto o trigrama superior representa o externo, o celeste e o sutil. Assim,
os antigos chineses utilizavam esse sistema para compreender como as forças do
mundo se interrelacionam, buscando situar o papel do homem nesse grande fluxo
de energias. Observavam processos naturais, como o ciclo da água — que evapora,
torna-se invisível, condensa-se em nuvens, precipita-se em chuva e retorna aos
rios e oceanos — e refletiam sobre como padrões cíclicos regiam tanto o universo
quanto a própria vida humana. Além disso, experiências como a observação da luz
passando por um pequeno orifício em uma sala escura podem ter levado a
percepções fundamentais sobre a natureza da energia e sua propagação em ondas.
Um exemplo notável dessa correspondência com descobertas modernas está
na estrutura do DNA, cujo código genético é composto por 64 códons,
que combinam quatro bases nitrogenadas em grupos de três, determinando a
formação das proteínas essenciais à vida. Da mesma forma, o I Ching
organiza sua lógica combinatória nos 64 hexagramas, que emergem da
interação entre os oito trigramas, cada um formado por três linhas Yin ou Yang.
Esse paralelismo estrutural sugere que ambos operam como sistemas codificadores
de informação: um na biologia e o outro na interpretação da realidade e do comportamento
humano. Tanto o DNA quanto o I Ching demonstram como uma matriz finita
de combinações pode gerar uma diversidade infinita de expressões, sejam elas
biológicas ou filosóficas. Isso nos leva a perguntar: será que os antigos
chineses intuíam, de alguma forma, uma lógica matemática e combinatória
semelhante àquela que rege a vida?
Esse conceito se expande ainda mais quando analisamos a física
moderna, especialmente a teoria das cordas. Nessa teoria, as
partículas fundamentais do universo não são pontos estáticos, mas sim cordas
vibrantes, cujas diferentes frequências de oscilação determinam suas
propriedades físicas. Essa visão ressoa com a interpretação do Yang e do Yin, respectivamente como picos e vales de uma onda, em que cada trigrama pode ser visto como
um fragmento de vibração, e cada hexagrama seria como uma das 64 variações
fundamentais da estrutura do universo com as quais se poderia compor diversas outras. Assim como na teoria das cordas,
onde os modos de vibração das cordas podem explicar a diversidade da matéria e
das forças, o I Ching pode ser compreendido como um sistema simbólico
que modela as dinâmicas da existência. A ideia de que tudo pode ser descrito
através de padrões vibracionais e combinações limitadas, mas infinitamente
expressáveis, sugere que o I Ching não é apenas uma tradição mística,
mas sim um modelo primitivo, porém sofisticado, de organização da realidade.
Os antigos chineses utilizavam um processo complexo e meditativo para
sortear os hexagramas do I Ching, envolvendo a contagem e recontagem meticulosa
de caules de bambu. Esse método, embora demorado, promovia uma profunda
concentração na questão que estava sendo considerada, permitindo que o ritual
fosse tão importante quanto o resultado.
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Quando o I Ching chegou ao Ocidente, o método foi simplificado com o
lançamento de moedas, o que tornou o processo mais acessível, mas ainda
preservou a essência reflexiva: o momento de observar como o resultado nos
afeta e ilumina nosso questionamento. Jung, um dos grandes admiradores que
popularizaram o I Ching, acreditava no poder da sincronicidade — o princípio de
significativas coincidências entre eventos internos e externos que parecem não
ter uma ligação causal direta, mas, sim, uma conexão simbólica, vista por cada
indivíduo de maneira singular, baseado em toda a história do ser e no impacto e
relevância psicológica do evento em relação a ela e aos pensamentos de momento. Para ele, o lançamento de
moedas era um meio de casar o mundo interno e externo em um instante
específico, permitindo ao consulente analisar o que se percebe naquele momento.
Assim, o resultado da moeda poderia, de uma forma personalíssima, estar intimamente
conectado ao mundo interno do consulente e ao seu questionamento. Na
concentração e na leitura da resposta no hexagrama e na linha, o consulente
cocria uma situação imaginária que ilumina sua questão, auxiliando no processo
decisório ou trazendo luz a um impasse que anteriormente causava hesitação.
Inspirado por essa busca de equilíbrio entre tradição e inovação,
desenvolvi uma forma de navegar pelo I Ching utilizando um cubo e dois
octaedros — sólidos platônicos que garantem probabilidades iguais para cada
lançamento, conectando cada possibilidade de resultado a uma linha específica
dos textos.
Essa ideia, naturalmente, pode ter surgido para outras pessoas também, como é comum quando buscamos adaptar práticas ancestrais a novos contextos. Há inclusive representações visuais semelhantes disponíveis, como as que mostram dados inspirados no I Ching. Ainda assim, vejo nela um esforço pessoal para criar uma experiência que simplifica as possibilidades de exploração, ao mesmo tempo em que preserva o espírito meditativo da prática. Mesmo não sendo o único, e talvez nem o primeiro, sinto alegria de ter imaginado essa maneira diferente de acessar o conteúdo, mas ainda próxima ao modo ocidental de interagir, um processo mais rápido e baseado na combinação de elementos matemáticos com a sincronicidade envolvida na prática. A natureza probabilística justa do método tem tudo a ver com o balanço e a aleatoriedade retratada nas mutações do universo e descrita nos textos dos hexagramas. E a concentração depende fundamentalmente do esforço individual.
"Shine On You Crazy Diamond"
Acredito que essa abordagem possa oferecer uma experiência tão rica quanto os rituais antigos, mas adaptada às práticas contemporâneas. Ela reflete um esforço para combinar a precisão matemática dos sólidos platônicos — os octaedros, com seus oito lados iguais representando cada um dos trigramas, e o cubo, com seus seis lados iguais determinando uma linha específica do hexagrama — com a profundidade reflexiva do I Ching. Dessa forma, busca-se manter com a justiça probabilística dos sorteios, o equilíbrio entre o racional e o intuitivo. A intenção é respeitar a essência dessa prática milenar, enquanto a tornamos mais acessível e direta para os consulentes da atualidade.
O I Ching não é apenas uma prática para aqueles que buscam respostas prontas ou certezas absolutas. Ele é, antes, um convite à jornada interior, um espelho que reflete nossas próprias questões e possibilidades. Como Carl Gustav Jung tão bem descreve: "O I Ching não oferece provas nem resultados: não faz alarde de si nem é de fácil abordagem. Como se fora uma parte da natureza, espera até que o descubramos. Não oferece nem fatos nem poder, mas, para os amantes do autoconhecimento e da sabedoria – se é que existem –, parece ser o livro indicado. Para alguns, seu espírito parecerá tão claro como o dia; para outros, sombrio como o crepúsculo; para outros ainda, escuro como a noite. Aqueles a quem ele não agradar não têm por que usá-lo, e quem se opuser a ele não é obrigado a achá-lo verdadeiro. Deixem-no ir pelo mundo para benefício dos que forem capazes de discernir sua significação."
Por fim, é importante ressaltar que, embora este texto busque explorar as dinâmicas do I Ching por uma perspectiva que valoriza os paralelismos com a psicologia, a ciência, o que pode ser racional nos nas análises das combinações energéticas descritas em cada hexagrama, além de um estudo de filosofia milenar, enquanto explora os efeitos da interação entre o consulente e o Livro das Mutações, não pretende desconsiderar ou excluir a dimensão metafísica que muitos experimentam ao interagir com ele. Para algumas pessoas, o I Ching transcende sua função como ferramenta reflexiva, sendo percebido como uma manifestação do Dao — o princípio fundamental e indizível que permeia todas as coisas, o fluxo natural do universo, ao qual tudo está interligado. Essa visão enxerga o I Ching como uma espécie de ponte para acessar uma macro inteligência, um eu superior, quase como se ele personificasse o Dao de forma simbólica e inteligente, respondendo às questões humanas com profundidade e harmonia.
Essa experiência, profundamente mística e transcendental para muitos,
está além da explicação puramente racional e merece ser respeitada. Assim, o I
Ching se revela como algo que pode ser acessado tanto pela mente analítica
quanto pela espiritualidade, oferecendo a cada pessoa uma conexão única com o
universo, de acordo com sua abertura e compreensão.





Muito bom!
ResponderExcluirObrigado!
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