Instabilidade Potencial

                                        

                                         


Imagine um céu totalmente branco.
Nenhuma noite, nenhuma escuridão, apenas luz em todas as direções.
E agora imagine o oposto absoluto: o nada.
Nem escuridão, nem luz.
Apenas vazio.
O que faz com que algo, como o universo, exista em vez de um eterno nada?

Uma das teorias mais aceitas na física, a do Big Bang, conduz à conclusão de que o nosso universo surgiu à medida que o espaço-tempo em que vivemos se desdobrou. Pode ser infinito, ou talvez o processo inflacionário calculado para suas primeiras eras seja o que conduza a isso. Ainda assim, há evidências indicando que o palco de nossa existência não existe desde sempre — mesmo considerando a atual crise cosmológica associada aos dados do James Webb.

O paradoxo de Olbers — o fato de não enxergarmos luminosidade em todas as direções num céu totalmente branco, apesar da presença de estrelas em todos os caminhos de visão — favorece a hipótese de uma condição inicial extrema: uma região cada vez menor suportando densidade crescente, que no instante zero de nossa perspectiva parece expandir violentamente. Pois, num universo infinito, eterno e estático, toda linha de visão terminaria numa estrela e o céu deveria brilhar totalmente — o que sugere que a luz não teve tempo infinito para nos alcançar e que o universo que conseguimos observar teve uma origem quente e densa.

A expansão do tecido do espaço-tempo é tão acelerada que não permite que a luz de determinados lugares chegue algum dia às nossas retinas. Algumas coisas jamais veremos: estarão para sempre fora do campo de visão. Outras que hoje podemos observar também se tornarão, no futuro, apenas registro histórico, já que o universo parece continuar se expandindo.

As galáxias fora de seus grupos locais — onde ainda se atraem gravitacionalmente — afastam-se umas das outras. E, embora enfrentemos uma crise cosmológica ligada à formação acelerada delas ou a possíveis erros nos cálculos sobre o início de tudo, o conjunto das evidências torna difícil abandonar completamente a teoria do Big Bang sem outra, mais convincente e igualmente compatível com as observações.

Uma alternativa é a de que o universo não possua início nem fim. Apesar de enxergarmos um marco inicial ao retroagir no tempo, talvez existam movimentos eternos de expansão e contração, entre os quais sementes do estado anterior possam ser transferidas para a etapa seguinte. Isso abriria margem para uma existência perpétua em múltiplos universos, nos quais qualquer ponto inicial se tornaria indeterminado.

Talvez numa geração posterior existam mais aniquilações, sobrando menos sementes para a seguinte.
Talvez este seja o primeiro.
Ninguém sabe.

Essa concepção de ciclos cósmicos — uma respiração universal — ecoa tradições antigas, como certas vertentes da filosofia hindu, e é defendida hoje por físicos renomados.

Para nossa mente, porém, é difícil imaginar algo que exista desde sempre. Vivemos num mundo onde, ao menos em nossa escala, a causalidade domina. Identificamos causas em efeitos e, ao retrocedermos nessa cadeia, tudo sugere um ponto no qual o que hoje é vasto esteve condensado numa região infinitamente pequena.

Essa tendência nos leva a perguntar:

o que existiria antes dessa singularidade?

A resposta mais imediata parece ser: o nada absoluto.

Porém, se antes existia o nada, por que tudo não permaneceu assim?

Acontece que o nada, ao menos como o concebemos, não se sustenta como absoluto. Mas podemos imaginá-lo como um ajuste perfeito entre potencialidades complementares.

E, se estamos num universo em que a existência é possível, ao pensar naquele em que o nada eterno seria a única realidade, talvez possamos conceber uma forma de partir justamente desse nada.

Pensemos por um instante que antes de tudo houvesse o nada — ainda não o considerando o vácuo quântico que conhecemos, mas algo realmente estático, além do espaço-tempo. Naturalmente, esse nada não deveria conter coisa alguma. Contudo, não poderia eliminar a mera possibilidade de algo infinitesimal existir, pois proibir já é, em si, uma forma de ser.

Essa reserva mínima de possibilidade, ou a energia necessária para anulá-la, bastaria para que o nada deixasse de ser absoluto.

Algo ainda não manifesto.
Mas já latente.

Possibilidades, no entanto, precedem ideias e acontecimentos. Talvez daí surja, por transformação de potência em movimento, um mundo onde exista matéria recheada de vazio, como o nosso.

Como possibilidades irresolvidas tendem à instabilidade, pode ser que as flutuações quânticas primordiais existam para expressar justamente isso: inícios microscópicos em regiões distintas, com chance eventual de conexão, ampliação ou cancelamento.

Com tempo suficiente, nesse borbulhar surgiriam bolsões de grande acúmulo e rarefação. Em pontos extremos de compressão, aconteceriam big bangs como o nosso. Diferenças iniciais de densidade, inscritas na geometria do espaço-tempo nascente, reverberariam por eras.

Pode soar insensato imaginar tal autogênese. Mas pensemos no zero: ele representa o nada e, ao mesmo tempo, o equilíbrio de todos os números possíveis. Um mais menos um. Dois mais menos dois.

O zero não é apenas vazio — é também uma simetria tensa, calibrada.

Uma boa imagem para o ovo primordial.

A natureza parece buscar contrapesos em todas as escalas. Às vezes por uniões. Outras por desfazimentos.

Saldos regionais de energia permitem partículas em órbita. Algumas persistem. Outras colidem. Estrelas nascem. E a criação prossegue, escala após escala.

Tal como a água muda de fase, o universo pode ter atravessado sucessivas transições até alcançar a configuração atual, onde ainda podemos acompanhar conversões de energia em matéria e vice-versa.

É vertiginoso imaginar a passagem do mundo das possibilidades abstratas para um mundo de leis, matéria, seta do tempo e entropia crescente. Essa questão permanece aberta — mas aqui avançamos ao menos até uma hipótese: a conversão gradual de energia “potencial” em cinética.

O nada inicial conteria potência máxima e movimento mínimo. Hoje vivemos uma fase de grande mobilidade, mas parece haver grande reserva a ser convertida, tanto que as medições apontam para contínua expansão.

Se o nada for instável, isso pode bastar para justificar flutuações primordiais e a possibilidade de um desencadeamento espontâneo. O universo opera probabilisticamente na menor escala: no vácuo surgem pares de partículas que logo se desfazem. Se esse processo ocorre em toda parte, pequenas assimetrias locais poderiam crescer — e, quem sabe, acender a escuridão.

Do não manifesto ao bolsão energético.
Daí ao físico-químico.
Depois ao biológico, que permite a manifestação consciente.

Um matemático elimina termos para revelar sobras significativas. O universo também compensa — matéria com antimatéria, entidades virtuais — e, ainda assim, em certas regiões sobra algo. Em outras, o oposto.

Se víssemos tudo, talvez o balanço fosse mais justo. Mas vemos apenas fragmentos. E precisamos reconstruir o todo a partir da parte.

Gödel mostrou: nenhum sistema se compreende por inteiro a partir de dentro.

Somos parte tentando enxergar o todo.
E isso exige cautela, paciência, respeito.

Ideias ridicularizadas retornam. Outras morrem. A busca permanece.

E talvez não seja necessário resolver, neste ponto, a questão teológica: deixemos essas decisões ao campo da fé, sem antagonismos desnecessários. A consciência ser transcendente ou fruto da evolução ainda é mistério, apesar das argumentações aqui propostas.

Energia escura pode ser apenas o efeito colateral de uma região densa expandindo-se rumo a um entorno muito mais rarefeito. Como um gás libertado numa caixa parcialmente evacuada: no início a expansão é violenta; depois desacelera.

Talvez aconteça algo semelhante em escala cósmica.

A possibilidade de multiverso amplia essa paisagem: infinitos universos, leis variadas, repetições incontáveis. Se algo surgiu uma vez, por que não outras? Por que não infinitas?

Nossa existência pode ser apenas uma dessas possibilidades que ganhou consistência: um mundo de energia total próxima de zero, mas cheio de bolsões de excesso e carência, onde o movimento nasce de perturbações mínimas — como se a realidade buscasse, sem cessar, um ajuste.

Talvez um dia colidamos com outro universo. Talvez leis se modifiquem. Talvez percebamos que aquilo que julgávamos fixo era apenas local.

Não porque somos necessários — mas porque o “nada” talvez seja incoerente.

Leibniz defendia que tudo tem uma razão suficiente. Mesmo retirando Deus da equação, o princípio permanece: algo demanda explicação.

As flutuações primordiais, para as quais damos causa, reforçam a suspeita de que o vazio nunca foi totalmente vazio.

A incerteza é um aspecto fundamental da natureza. Ela, em determinadas circunstâncias, apresenta propriedades inerentemente indeterminadas ou imprecisas, carentes de complementariedade. Isso é instabilidade em estado puro. Alguma amarração se impõe. E o fato de o universo prezar tanto uniões e compensações sugere essa busca por estabilidade. Quem já é perfeitamente estável não cria história. Nem movimento. Os gases nobres servem de exemplo.

Incerteza e instabilidade podem ajudar-nos a compreender melhor o início de um universo que se apresenta tão aleatório na menor escala. A natureza se ajusta às condições locais, construindo o todo por meio de adaptações contínuas que permitem a evolução. Isso se dá porque, mesmo em processos caóticos, sempre encontra uma passagem possível em determinada chance. Para algo acontecer basta concedermos tempo e espaço — exatamente o que foi fabricado e entrelaçado na condição inicial.

Tudo parece ser um processo de acomodar forças existentes numa região; nesse caminho há dissoluções que retornam a matéria a um estado energético abstrato e talvez repulsivo, expansivo, e há também combinações que fabricam áreas de concentração.

A natureza parece se auto adaptar ao que pode ser e ao que não pode ser, margeando os limites permitidos. Nas respostas aleatórias no microcosmo, ao variar em determinado tempo e local, acerta as condições para evolução e transformação daquele pedaço. Nas leis determinantes do macrocosmo cria a estabilidade para que a matéria siga um ordenamento previsível. Ambos os processos colaboram com a possibilidade de vida — talvez realizando pequenas transgressões aqui e acolá, como parece ser o caso das partículas virtuais, que ampliam as possibilidades de algo mais.

Ela preenche todos os espaços possíveis, todas as formas possíveis, sempre que as condições permitirem. Assim, a existência de algo, dada a mínima chance inicial, de alguma forma, parece inevitável.

No microcosmo, aleatoriedade.

No macrocosmo, regularidade.
Ambas cooperam para a vida.

Todos os espaços possíveis são explorados. E, dada a menor brecha inicial, talvez a existência fosse inevitável.

Parmênides já sustentava: pensar o nada é já pensar algo.

Nós, humanos, perguntamos porque buscamos sentido. Talvez essa pergunta diga tanto sobre nós quanto sobre o universo.

O mais espantoso não é o universo existir.

Mas dentro dele existir algo que pergunta o porquê.

Comentários

  1. Talvez o texto mais profundo até aqui. Várias coisas veem a cabeça com a teoria da instabilidade potencial. Você abordou muitas. Me
    Veio a cabeça o 1o Matrix. Que como o Tarantino disse. Poderia ter sido o único. Mas no 2o. O que já contradiz meu ídolo. A criação da primeira Matrix foi brilhante. Do mesmo tamanho da sua epopeica queda já que tudo estava em equilíbrio. E o caos se instaurou a destruindo. Então a falta de equilíbrio ou a falta do nada se torna a resposta para o universo. E ele, tão perfeito. Não deixou o nada vencer. Viva o desequilíbrio!!!

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  2. Valeu Guga, sempre bacana receber seus comentários atentos a leitura!

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